22 de xullo de 2017

Por Quem os Sinos Dobram

Ernest Hemingway
Por Quem os Sinos Dobram (1940)

Como afirma Ricardo de la Cierva na Historia Total de España, a mitologia da guerra civil deve-se à plêiade de escritores estrangeiros que visitaram e, por vezes, intervieram activamente na guerra espanhola, quase sempre do lado republicano, quando já eram famosos ou estavam prestes a sê-lo; e foram precisamente as suas obras sobre Espanha, quase sempre, que os consagraram de forma definitiva. Embora não tenham faltado autores importantes a escrever sobre o lado franquista – e nomeia-os –, é evidente que o lado republicano contou com uma autêntica constelação de estrelas: Hemingway, Orwell, Bernanos, Malraux, Koestler, Ehrenburg, Koltsov ou Maritain. E – continua – ninguém parece ter percebido que essas obras imortais eram novelas, ou seja, obras de ficção; e que, portanto, a imagem histórica que se forjou noutros países sobre a guerra civil espanhola era uma imagem de ficção.
Ernest Hemingway passou por Madrid, em 1937, no papel de repórter, antes de contribuir para a citada mitologia com este livro, For Whom the Bell Tolls no título original, editado quando as cinzas da guerra ainda fumegavam. Nele se acompanha Robert Jordan, um americano das Brigadas Internacionais, que se junta aos guerrilheiros da montanha, na região de Segóvia, com a missão de dinamitar uma ponte. As quase 500 páginas do livro decorrem nos quase quatro dias que precedem a destruição da ponte e nos momentos seguintes, para as consequências e o desfecho.
A Jordan, o Inglés, pergunta-lhe uma das personagens: «És comunista?» «Não. Sou antifascista» responde ele, numa evasiva dir-se-ia, sendo sabido que, naquela guerra, lutar ao lado dos republicanos era lutar do lado dos soviéticos pelo triunfo do bolchevismo em Espanha – e sem a desculpa da ignorância, porque, já então, era facto bem conhecido que Estaline tinha as mãos sujas de sangue. Depois das descrições de violência gratuita e da relação amorosa com a jovem Maria, a semente da dúvida instala-se na mente de Robert Jordan, agora já não tão indiferente pelo destino dos que o rodeiam. As dúvidas que o assaltam nunca põem em causa as suas convicções, e a razão do lado pelo qual combate, «em prol de todos os pobres do mundo, contra todas as tiranias», conforme a mentirosa cartilha sobejamente conhecida. Mesmo assim, Hemingway resiste a pintar a história a um preto-e-branco panfletário, sendo que a coragem e a generosidade, tal como a malvadez e a estupidez, podem ser encontradas nos dois lados em contenda. A própria citação de John Donne, que abre o livro, onde se diz «a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano», dá o tom apropriado.
Mas, ao escolher o seu «lado», Hemingway, tal como muitos outros ao longo do tempo, terá sentido o suporte de uma duvidosa «superioridade moral» devida a um Governo tido por «legítimo», derrubado pela «tenebrosa revolta fascista». (Em nome desse princípio, quanta asneira se tem feito em Espanha nos últimos 40 anos!). Pois bem: até essa cartada estava viciada, já que os estudos mais recentes (Manuel Álvarez Tardío, Roberto Villa García) e a documentação trazida à luz do dia (as recuperadas memórias de Niceto Alcalá-Zamora, Presidente da República entre 1931 e 1936, roubadas da caixa-forte de um banco madrileno, em 1937, pelo Governo republicano) provam, sem margem para dúvidas, que a Frente Popular foi derrotada na eleições de Fevereiro de 1936 e não teve qualquer pejo em recorrer a um «pucherazo», uma fraude eleitoral, para contornar uma desvantagem de 700 mil votos.

Não, ele executaria as ordens, embora tivesse a infelicidade de gostar das pessoas de quem tinha de servir-se e iria sacrificar.
Todos os trabalhos que os partizans tinham feito sempre haviam dado azar e sempre pioraram a situação dos que os acolhiam e auxiliavam. E para quê? Para que, no fim de contas, o país se visse livre de todos os males e se tomasse um lugar agradável para viver. Era verdade, por mais banal que isso pudesse parecer.
Se a República se desmoronasse tornar-se-ia impossível para os que nela acreditavam viver em Espanha. Mas seria assim? Era, estava certo disso pelo que sabia que vinha acontecendo nas zonas onde os fascistas já dominavam.
Pablo era um porco, mas os outros eram gente espantosa e não seria traição arrastá-los para aquele trabalho? Talvez. Mas se eles não o fizessem, dois esquadrões de cavalaria viriam dentro em pouco caçá-los naquelas montanhas, dentro de uma semana talvez.
Não. Não havia nada a ganhar em deixá-los em paz. A menos que toda a gente fosse deixada em paz e ninguém se metesse com o próximo. Então tu acreditas verdadeiramente que o ideal é deixar toda a gente tranquila? Sim, acreditava em tal. Mas então a sociedade organizada e tudo o mais? Isso competia aos outros. Ele tinha mais que fazer, terminada a guerra. Ele combatia naquela guerra porque a luta irrompera num país que ele amava e porque acreditava na República, e se a República fosse destruída a vida tornar-se-ia impossível para os que acreditavam nela. Estava sob o comando comunista enquanto durassem as operações. Aqui, em Espanha, eram os comunistas que revelavam a melhor disciplina, a mais razoável e a mais sã porque, na condução da guerra, eram o único partido cujo programa e disciplina lhe inspiravam respeito.
Mas que opiniões políticas eram então as suas? Não tinha nenhuma de momento. Mas não iria dizer isso a ninguém. Nunca. É que vais fazer depois? Voltar ao meu país para ganhar a vida a ensinar o espanhol, como dantes e escrever um livro verdadeiro. Tenho a impressão, sonhava ele, tenho a impressão de que me será fácil.

Li anteriormente:
O Sol Nasce Sempre (Fiesta) (1926)
O Adeus às Armas (1929)
Ilhas na Corrente (1970)

25 de xuño de 2017

La Rebelión de las Masas


José Ortega y Gasset
La Rebelión de las Masas (1930)

Julián Marías alerta, no prólogo, que este livro – o mais conhecido de Ortega y Gasset – suscitou muitos mal-entendidos, dado ser apenas uma parte do conjunto da obra do autor, na qual estão as suas raízes e a sua justificação; A Rebelião das Massas será um capítulo de sociologia integrado num pensamento mais abrangente, que, isolado do seu contexto, poderá não ser totalmente apreendido. O próprio autor acrescentou-lhe, quase uma década depois, um “Prólogo para franceses” e um “Epílogo para ingleses” com considerações acerca de como a passagem dos anos retirou pertinência ao livro – encarou mesmo a possibilidade de escrever uma segunda parte complementar.
Escrito entre 1926 e 1929, destinado a conferências e a artigos de jornal, este ensaio foi publicado como livro em 1930, e analisa a emergência da sociedade das massas. A caracterização do homem-massa, que ocupa a primeira parte do livro, descreve a ascensão, não só ao poder mas a todos os ramos da sociedade, do homem médio, marcado pela vulgaridade e pela mediocridade, um fenómeno não de classe, mas transversal a todas as classes sociais. Se um homem de excelência é aquele que exige muito de si próprio e se define pela exigência e pelas obrigações, o homem vulgar, pelo contrário, nada exige de si, é auto-suficiente, injustificadamente confiante, e reclama os seus supostos “direitos” sem nada ter feito para os merecer. E para que não se pense que o homem-massa emana apenas da plebe, Ortega aponta a especialização como a causa do estreitamento de vistas desses indivíduos parcialmente qualificados, os sábios-ignorantes, que, sendo versados nas matérias que lhes respeitam, julgam ter opinião válida sobre qualquer coisa, mesmo que fique fora da sua área de especialização – política, arte, religião e todas as esferas da vida. E nomeia-os: médicos, engenheiros, financeiros, professores e, de um modo geral, os chamados «homens de ciência», a quem acusa de um comportamento primitivo e bárbaro, que simbolizam o império das massas. Na sociedade de massas não será por isso de espantar que o plano político reflicta o que se passa no plano intelectual e moral.
Quanto à Europa se encontrar ou não em decadência, uma questão que preocupava o pensamento da época, Ortega y Gasset não via motivos de preocupação. Reconhece a existência de uma crise moral, mas considera-a circunstancial, dado que a aliança da democracia liberal com o desenvolvimento técnico frutificou numa sociedade de abundância com parâmetros de bem-estar material jamais vistos. Os totalitarismos que então avançavam merecem-lhe duras críticas, considera-os regressivos e produto típico dos homens-massa.
Numa segunda parte em que analisa a natureza do poder, o modo como ele é exercido e o que sucede na sua vacilação ou ausência, com comparações históricas, destaca-se o seu europeísmo optimista defendendo a integração dos estados numa entidade supranacional como superação da crise observada, que associa à exiguidade de horizontes que considera terem atingido os estados nacionais, também eles forjados pouco antes pela união de estados fragmentados – sublinhando: sem a anulação das nações. Temos, assim, a defesa de um império sem imperialismo que devolvesse à Europa o espírito de liderança civilizacional, no qual ela parecia então desacreditar.

Nos encontramos, pues, con la misma diferencia que eternamente existe entre el tonto y el perspicaz. Éste se sorprende a sí mismo siempre a dos dedos de ser tonto; por ello hace un esfuerzo para escapar a la inminente tontería, y en ese esfuerzo consiste la inteligencia. El tonto, en cambio, no se sospecha a sí mismo: se parece discretísimo, y de ahí la envidiable tranquilidad con que el necio se asienta e instala en su propia torpeza. Como esos insectos que no hay manera de extraer fuera del orificio en que habitan, no hay modo de desalojar al tonto de su tontería, llevarlo de paseo un rato más allá de su ceguera y obligarlo a que contraste su torpe visión habitual con otros modos de ver más sutiles. El tonto es vitalicio y sin poros. Por eso decía Anatole France que un necio es mucho más funesto que un malvado. Porque el malvado descansa algunas veces; el necio, jamás.
No se trata de que el hombre-masa sea tonto. Por el contrario, el actual es más listo, tiene más capacidad intelectiva que el de ninguna otra época. Pero esa capacidad no le sirve de nada; en rigor, la vaga sensación de poseerla le sirve sólo para cerrarse más en sí y no usarla. De una vez para siempre consagra el surtidor de tópicos, prejuicios, cabos de ideas o, simplemente, vocablos hueros que el azar ha amontonado en su interior, y con una audacia que sólo por la ingenuidad se explica, los impondrá dondequiera. Esto es lo que en el primer capítulo enunciaba yo como característico en nuestra época: no que el vulgar crea que es sobresaliente y no vulgar, sino que el vulgar proclame e imponga el derecho de la vulgaridad o la vulgaridad como un derecho.
El imperio que sobre la vida pública ejerce hoy la vulgaridad intelectual es acaso el factor de la presente situación más nuevo, menos asimilable a nada del pretérito. Por lo menos en la historia europea hasta la fecha, nunca el vulgo había creído tener «ideas» sobre las cosas. Tenía creencias, tradiciones, experiencias, proverbios, hábitos mentales, pero no se imaginaba en posesión de opiniones teóricas sobre lo que las cosas son o deben ser —por ejemplo, sobre política o sobre literatura—. Le parecía bien o mal lo que el político proyectaba y hacía; aportaba o retiraba su adhesión, pero su actitud se reducía a repercutir, positiva o negativamente, la acción creadora de otros. Nunca se le ocurrió oponer a las «ideas» del político otras suyas; ni siquiera juzgar las «ideas» del político desde el tribunal de otras «ideas» que creía poseer. Lo mismo en arte y en los demás órdenes de la vida pública. Una innata conciencia de su limitación, de no estar calificado para teorizar, se lo vedaba completamente. La consecuencia automática de esto era que el vulgo no pensaba, ni de lejos, decidir en casi ninguna de las actividades públicas, que en su mayor parte son de índole teórica.
Hoy, en cambio, el hombre medio tiene las «ideas» más taxativas sobre cuanto acontece y debe acontecer en el universo. Por eso ha perdido el uso de la audición. ¿Para qué oír, si ya tiene dentro cuanto falta? Ya no es sazón de escuchar, sino, al contrario, de juzgar, de sentenciar, de decidir. No hay cuestión de vida pública donde no intervenga, ciego y sordo como es, imponiendo sus «opiniones».
Pero ¿no es esto una ventaja? ¿No representa una progreso enorme que las masas tengan «ideas», es decir, que sean cultas? En manera alguna. Las «ideas» de este hombre medio no son auténticamente ideas, ni su posesión es cultura. La idea es un jaque a la verdad. Quien quiera tener ideas necesita antes disponerse a querer la verdad y aceptar las reglas de juego que ella imponga. No vale hablar de ideas u opiniones donde no se admite una instancia que las regula, una serie de normas a que en la discusión cabe apelar. Estas normas son los principios de la cultura. No me importa cuáles. Lo que digo es que no hay cultura donde no hay normas a que nuestros prójimos puedan recurrir. No hay cultura donde no hay principios de legalidad civil a que apelar. No hay cultura donde no hay acatamiento de ciertas últimas posiciones intelectuales a que referirse en la disputa. No hay cultura cuando no preside a las relaciones económicas un régimen de tráfico bajo el cual ampararse. No hay cultura donde las polémicas estéticas no reconocen la necesidad de justificar la obra de arte.
Cuando faltan todas esas cosas, no hay cultura; hay, en el sentido más estricto de la palabra, barbarie. Y esto es, no nos hagamos ilusiones, lo que empieza a haber en Europa bajo la progresiva rebelión de las masas. El viajero que llega a un país bárbaro sabe que en aquel territorio no rigen principios a que quepa recurrir. No hay normas bárbaras propiamente. La barbarie es ausencia de normas y de posible apelación.

17 de xuño de 2017

Mona Lisa Acelerada

William Gibson
Mona Lisa Acelerada (1988)

Mona Lisa Overdrive no seu título original, é o último livro da trilogia Sprawl, o qual optei por ler na tradução espanhola depois das más experiências com as traduções em português do Brasil.
Uma vez mais o fio narrativo segue diferentes personagens em histórias simultâneas, mais ou menos convergentes, que têm por fundo a acção de AIs que se tornaram autónomas e conscientes.
Kumiko Yanaka, uma miúda de 13 anos de Tóquio, que vem para Londres para ficar a salvo de uma esperada guerra de gangs que envolvem o seu pai. É acompanhada inicialmente por uma enigmática Sally Shears, que acaba por se revelar a Molly de Neuromancer.
Slick Henry, um mecânico ex-presidiário que vive numas instalações arruinadas pertencentes a um sujeito chamado Gentry, que, para pagar uma antiga dívida, vê-se obrigado a albergar um indivíduo em estado inconsciente, ligado a um imenso bloco de dados de realidade virtual. Esse indivíduo, a quem ouviram chamar Conde, sabe-se mais tarde ser Bobby Newmark, o Conde Zero. Quanto a Gentry é igualmente um obcecado pelos segredos ciberespaço.
Angela Mitchell, uma superestrela do estim, que passa uns dias isolada numa casa de Malibú, no intervalo de uma cura de desintoxicação, rodeada de vigilância electrónica por todo o lado. Angela, é a filha de Christopher Mitchell, uma das personagens centrais de Count Zero; na infância, o pai operou sobre ela uma transformação neurológica que a põe no centro da trama deste livro, quando o seu caminho se cruza com o de Molly.
A jovem Mona Lisa, uma espécie de “dançarina exótica” de Cleveland, viciada em droga, que no início do livro se encontra na Florida com Eddy, o seu companheiro e “empresário”, sem quaisquer perspectivas de vida, o que muda rapidamente com uma viagem de avião ao Sprawl – essa imensa mancha urbana que agregou várias cidades da costa leste dos EUA. Aí, descartado Eddy, submetem-na uma operação plástica que a transforma numa sósia de Angela Mitchell, numa obscura jogada que pretende a troca de personalidades.
Apesar de funcionar como uma obra isolada, pelo cruzamento de personagens e situações é de toda a conveniência ter lido anteriormente os outros dois tomos da trilogia. Para quem os já leu, este é o complemento final que não deve ser perdido. Talvez não seja má ideia, como método, ler os três livros de seguida – coisa que eu não fiz...

Piper y Raebel se pusieron sendos jerseys y salieron a la terraza, donde se quedaron calentándose las manos al calor de las brasas, y Angie se encontró a solas con el director en la sala de estar.
—Estabas a punto de contarme, David, lo que hacías en el pozo...
—Buscaba solitarios de verdad. —Se pasó una mano por el enmarañado cabello.— Viene de una cosa que quise hacer el año pasado y que tenía que ver con las comunidades intencionales de África. El problema está en que, una vez que llegué allí arriba, me enteré de que todo aquel que va tan lejos, que realmente vive a solas en órbita, está por lo general decidido a quedarse así.
—¿Estuviste grabando? ¿Haciendo entrevistas?
—No. Quería encontrar personas así y convencerlas de que se grabaran ellas mismas sus propios segmentos.
—¿Lo hiciste?
—No, pero oí algunas historias. Unas historias estupendas. Un piloto de remolcador aseguraba que hay niños salvajes que viven en una fábrica de drogas japonesa aislada. Allí fuera hay toda una serie de mitos nuevos, de verdad: naves fantasmas, ciudades perdidas... La cosa tiene su pathos, si lo piensas. Quiero decir, todas esas cosas están bloqueadas en órbita. Todo ello ha sido hecho por el hombre, conocido, poseído, colocado en un mapa. Es como ver mitos que echan raíces en un aparcamiento. Aunque supongo que a la gente le hace falta ese tipo de cosas, ¿no?
—Sí —dijo Angie, pensando en Legba, en Mamman Brigitte, en las mil velas...
—Sin embargo —agregó Pope—, lamento no haber podido llegar hasta Lady Jane. ¡Qué historia tan increíble! Gótico puro.
—¿Lady Jane?
—Tessier-Ashpool. Su familia construyó el toro de Freeside. Pioneros de órbita alta. Plan de Rodaje tiene un vídeo que es una maravilla... Dicen que ella mató a su padre, y es la última del linaje. Se les acabó el dinero hace años. Lo vendió todo, hizo que separasen su casa de la punta del huso y se hizo remolcar a otra órbita...
Angie se incorporó en el diván, con las rodillas bien juntas, los dedos entrelazados. Le corrieron gotas de sudor por los costados.
—¿No sabes la historia?
—No —dijo ella.
—Eso ya es interesante de por sí, porque demuestra hasta qué punto eran adeptos a la oscuridad. Utilizaban su dinero para mantenerse a salvo de las noticias. La madre era Tessier, y el padre Ashpool. Construyeron Freeside cuando no existía nada que se le pareciera. Con eso se hicieron espectacularmente ricos. Quizá cuando murió Ashpool ocuparan un muy cercano segundo lugar después de Josef Virek. Y, por supuesto, con el tiempo se hicieron también fantásticamente raros: les había dado por clonar a sus hijos al por mayor...
—Eso suena... horrible. Y tú intentaste, ¿trataste de dar con ella?
—Vaya, hice algunas averiguaciones. Plan de Rodaje me había conseguido ese vídeo de Becker, y su órbita aparece en el libro, claro, pero no quedaba bien eso de dejarse caer sin haber sido invitado, ¿verdad? Y además Hilton me hizo llamar para volver al trabajo... ¿No te sientes bien?
—Sí, creo..., creo que voy a cambiarme de ropa, me pondré algo más abrigado.

Li anteriormente:
Count Zero (1986)
Neuromancer (1984)

3 de xuño de 2017

Do Liberalismo à Apostasia – A Tragédia Conciliar

Marcel Lefebvre
Do Liberalismo à Apostasia – A Tragédia Conciliar (1987)

Como já escrevi sobre outro livro, no início deste ano, adaptando agora o tema e os autores, «Não tenho por hábito ler livros sobre religião escritos por membros do clero, mas...», e este mas prende-se com a personalidade do arcebispo Marcel Lefebvre (1905-1991), pois basta ler a sua biografia para se perceber a dimensão da sua integridade, de homem que não pactuou com aqueles que considerava os destruidores do catolicismo. Recordo-me, já vão mais de 30 anos, de ler o seu nome em curtas notícias sobre a sua «rebeldia» em continuar a celebrar a missa em latim – o que me parecia então uma bizantinice – porém o tema não era aprofundado e nunca me apercebi do que estava realmente em questão. Entretanto, recentemente, li um excerto deste mesmo livro, o qual me trouxe até aqui.
Com um título original ainda mais longo do que o desta edição publicada no Brasil (Ils l'ont découronné : du libéralisme à l'apostasie, la tragédie conciliaire), este livro tem por base uma série de conferências feitas no seminário de Écône, cidade suíça onde Lefebvre foi bispo, onde fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, e onde está sepultado.
Marcel Lefebvre entende que a Verdade é imutável por definição; a Verdade não pode ser uma coisa hoje e outra coisa diferente amanhã; para a fé, a evolução é a morte. Depois de fazer um historial do liberalismo, fruto do racionalismo e do subjectivismo, e da crítica que historicamente os papas lhe moveram, recorrendo à citação de inúmeros textos papais entre o séc. XIX e a primeira metade do séc. XX acerca do lugar da Igreja no Estado e dos perigos da modernidade, considera que o Concílio Vaticano II, minado por maçons e liberais, entra em contradição directa com a tradição e a doutrina da Santa Sé. As conclusões do Concílio levaram à ruína do direito público da Igreja, no que designa como Reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo como consequência directa a supressão do princípio do estado confessional católico, a sua laicização, a pedido do próprio Vaticano, o que considera uma verdadeira traição. Na verdade, sob o pretexto de «acompanhar os tempos», este Concílio não foi, aparentemente, a jogada mais brilhante (como a posição oficial da Igreja tenta ainda fazer crer), tendo em conta o esvaziamento dos templos e a descristianização galopante que não logrou estancar.
Crítico frontal e incómodo da Igreja pós-conciliar, Marcel Lefebvre acabou por ser excomungado por João Paulo II em 1988; foi também condenado a uma multa por um tribunal francês, em 1990, por delito de opinião, após se ter manifestado publicamente contra o perigo da imigração islâmica. Resta reconhecer a falta que fazem homens do sua craveira à Igreja e ao mundo actual.

— «Maçons, o que quereis?» O que solicitais de nós? Tal é a pergunta que o Cardeal Bea fez aos B'nai B'rith antes do começo do Concílio: a entrevista foi relatada por todos os jornais de Nova Iorque, onde ela se realizou. Os maçons responderam que queriam a «liberdade religiosa!», o que quer dizer todas as religiões em plano de igualdade. A Igreja, de agora em diante, não há de ser chamada a única e verdadeira religião, o único caminho de salvação, a única admitida pelo Estado. Terminemos com estes privilégios inadmissíveis e declarai então a liberdade religiosa. Eles o conseguiram: foi a «Dignitatis Humanae».
— «Protestantes, o que quereis?» O que solicitais para que vos possamos satisfazer e rezar juntos? A resposta foi: Trocai vosso culto, retirai aquilo que não podemos admitir! Muito bem, lhes foi dito, inclusive os chamaremos quando formos elaborar a reforma litúrgica. Vós formulareis vossos desejos e a eles nós ajustaremos nosso culto! Assim aconteceu: foi a constituição sobre a liturgia «Sacrosanctum Concilium», primeiro documento promulgado pelo Vaticano II, que dá os princípios e o programa detalhado da adaptação litúrgica, feita de acordo com o protestantismo, depois o «Novus Ordo Missae» promulgado por Paulo VI em 1969.
— «Comunistas, o que solicitais, para que possamos ter a felicidade de receber alguns representantes da Igreja Ortodoxa Russa no Concílio? Alguns emissários do K.G.B.!» A condição exigida pelo patriarca de Moscou, foi a seguinte: «Não condeneis o Comunismo no Concílio, não faleis neste tema!». (Eu acrescentaria: sobretudo nada de consagrar a Rússia ao Coração Imaculado de Maria!) e também «manifestai a abertura do diálogo conosco». E o acordo se fez, a traição foi consumada: «Estamos de acordo, não condenaremos o comunismo!» Isto mesmo foi executado ao pé da letra: eu mesmo levei, juntamente com Mons. De Proença Sigaud, uma petição com 450 assinaturas de Padres conciliares ao Secretário do Concílio Mons. Felici, solicitando que o Concílio pronunciasse uma condenação da mais espantosa técnica de escravidão da história humana, o comunismo. Depois, como nada acontecia, perguntei onde estava nosso pedido. Procuraram e finalmente me responderam com uma desenvoltura que me deixou estupefato: «Seu pedido se extraviou numa gaveta...». E não se condenou o comunismo; ou melhor, o Concílio cuja intenção era discernir «os sinais dos tempos», foi condenado por Moscou a guardar silêncio sobre o mais evidente e monstruoso dos sinais dos tempos atuais!
Está claro que houve no Concílio Vaticano II um entendimento com os inimigos da Igreja, para terminar com as hostilidades para com eles. É um entendimento com o diabo!

23 de maio de 2017

Diario de la Guerra del Cerdo

Adolfo Bioy Casares
Diario de la Guerra del Cerdo (1969)

Este livro foi mencionado em uma ou outra análise às reacções ao Brexit, e com razão.
Um grupo de amigos rondando os sessenta anos constata, com preocupação, na sua cidade, a criação de um ambiente de hostilidade em relação aos velhos, por parte dos jovens. Esses jovens, influenciados por um demagogo televisivo, partem para a violência, agressão e até assassínio, num clima de certa impunidade e, até, condescendência. Centrado na personagem de Isidoro Vidal, acompanhamos os casos e dramas no seu grupo, ao qual se referem muito naturalmente como «os rapazes», sem entenderem muito bem se já ultrapassaram a fronteira fatídica da idade que os torna num alvo preferencial. Uma frase do capítulo XLI resume a sua posição: «Os jovens não entendem até que ponto a falta de futuro elimina o velho de todas as coisas que na vida são importantes».
Ao contrário da sociedade tradicional, onde o ancião é respeitado pelo seu conhecimento e experiência, na moderna sociedade materialista e mercantilista o velho é considerado obsoleto e um peso morto; esta obra foi escrita há quase 50 anos e, ao intuir o que aí vinha, Bioy Casares foi um visionário.

Cuando dobló por Paunero, Vidal sintió de pronto una íntima convicción de estar solo. Dirigió la vista al sitio que debía ocupar Isidorito; ahí no había nadie. Se volvió hacia la esquina. Isidorito se alejaba en dirección a Bulnes.
—¿No venís a casa? —gritó Vidal.
—Sí, ya voy, viejo. Hago una diligencia y voy —contestó quejumbrosamente el muchacho.
Vidal pensó que sin duda llega un momento en la vida en que, haga uno lo que haga, solamente aburre. Queda entonces una manera de recuperar el prestigio: morir. Ambiguamente agregó: Por tan poco tiempo no vale la pena.
Había llegado a su casa. El temor de que Bogliolo, recostado contra la puerta, lo hubiera sorprendido en su monólogo, lo indujo a saludarlo excesivamente:
—¿Qué se cuenta, señor Bogliolo? ¿Cómo le va?
El otro no contestó en seguida. Después dijo:
—No le extrañe si no le devuelvo el saludo. Yo, a un hombre que no me cumple un encargo, lo doy por muerto. Le digo más: le concedo la importancia que se da a una basura.
Vidal lo miró desde abajo, se encogió de hombros, caminó a la pieza. Cuando hubo cerrado la puerta se prometió a sí mismo que si alguna vez llegaba a ser un gigante, molería a palos a Bogliolo. Hacía frío en el cuarto. Pensó: “Qué raro. Hablábamos con Isidorito del individuo y a los pocos minutos lo encuentro”. Se dijo que esos presagios, a lo mejor simples coincidencias, recuerdan que la vida, tan limitada y concreta para quien procura indicios del más allá, siempre puede envolvernos en pesadillas desagradablemente sobrenaturales. Puso a hervir el agua. Debía acordarse de hablar con Arévalo del tema de los presagios. En la juventud, a lo largo de interminables caminatas nocturnas, habían tenido famosas discusiones filosóficas; después, aparentemente, la vida los había cansado. Llevó la pavita y el mate, se acomodó en la mecedora, mateó y, ocasionalmente, se hamacó. Cerró los ojos. En la calle resonó una bocina como las que usaban los coches de antes. Cuando oyó a lo lejos el tranvía que después de la curva se balanceaba para tomar impulso y, con un quejido metálico, avanzaba acelerando, entendió que soñaba. Si no recordaba nada de lo que luego había ocurrido tenía alguna esperanza de que fuera el alba, de estar en su casa de la calle Paraguay y de que sus padres durmieran en el cuarto de al lado. Oyó un ladrido. Se dijo que era Vigilante, el perro, atado junto a la glicina del patio. Imaginó o soñó una conversación en que refería este sueño a Isidorito, que lo encontraba gracioso, por la presencia de anticuados tranvías y de automóviles cuyas bocinas emitían sonidos ridículos. Retrospectivamente resultaba difícil distinguir lo que había pensado de lo que había soñado. Creyó por primera vez entender porqué se decía que la vida es sueño: si uno vive bastante, los hechos de su vida, como los de un sueño, se vuelven incomunicables porque a nadie interesan. Las mismas personas, después de muertas, pasan a ser personajes de sueño para quien las sobrevive; se apagan en uno, se olvidan, como sueños que fueron convincentes, pero que nadie quiere oír. Hay padres que encuentran en sus hijos un auditorio bien dispuesto, de modo que en la crédula imaginación de algún chico los muertos recuperan un último eco de vida, que muy pronto se borra como si no hubieran existido nunca.

Li anteriormente:
El Sueño de los Héroes (1954)
La Invención de Morel (1940)

8 de maio de 2017

Conversación en La Catedral

Mario Vargas Llosa
Conversación en La Catedral (1969)

A Catedral do título é o nome de uma tasca onde Santiago Zavala, jornalista, e Ambrosio, antigo motorista do pai de Santiago, passam uma tarde de conversa depois de um reencontro inesperado, anos depois de se terem visto pela última vez. Nessa conversa rememoram-se os anos passados, as voltas de uma vida que levaram ao tempo presente, num confronto de experiências que complementam as perspectivas pessoais das situações vividas. A obra, que tem por pano de fundo o ochenio de Manuel Odría, regime militar que durou de 1948 a 1956, sem pretender ser um romance histórico permite algum paralelismo entre algumas personagens e os seus equivalentes reais; a “conversa”, no entanto, tem lugar já depois do fim deste regime.
No prólogo, diz o autor que foi a obra que lhe deu mais trabalho e, se só pudesse salvar do fogo uma delas, esta seria a escolhida. Na verdade, tem algumas particularidades de escrita, como diálogos simultâneos e justaposições de cenas que surgem paralelamente, e encaixam muito bem sem perder o fio narrativo; além disso toda a história decorre em grandes planos narrativos, não lineares na sua sequência, mas que vão fazendo luz sobre o que se leu anteriormente.

Unos minutos después vio entrar a Jacobo y Aída de la mano. Ya no un gusanito ni una culebra ni un cuchillo, un alfiler que hincaba y se esfumaba. Los vio cuchicheándose junto a los añosos estantes y vio el abandono y la alegría de la cara de Jacobo y los vio soltarse cuando Matías se les acercó y vio que desaparecía la sonrisa de Jacobo y aparecía la concentración ceñuda, la abstracta seriedad, la cara que mostraba al mundo desde hacía algunos meses. Llevaba el terno café que ahora se cambiaba rara vez, la camisa arrugada, la corbata con el nudo flojo. Le ha dado por disfrazarse de proletario bromeaba Washington, piensa, se afeitaba una vez por semana y no se lustraba los zapatos, un día de estos Aída lo va a dejar se reía Solórzano.
—Tanto misterio porque ese día íbamos a dejar de jugar —dijo Santiago—. Iba a empezar la cosa en serio, Carlitos.
Había sido al comenzar ese tercer año en San Marcos, Zavalita, entre el descubrimiento de Cahuide y ese día. De las lecturas y discusiones a la distribución de hojitas a mimeógrafo en la Universidad, de la pensión de la sorda a la casita del Rímac a la librería de Matías, de los juegos peligrosos al peligro de verdad: ese día. No habían vuelto a juntarse los dos círculos, sólo veía a Jacobo y a Aída en San Marcos, había otros círculos funcionando pero si se lo preguntaban a Washington respondía en boca cerrada no entran moscas y se reía. Una mañana los llamó: a tal hora, en tal parte, sólo ellos tres. Iban a conocer a uno de Cahuide, que le plantearan las preguntas que quisieran, las dudas que tuvieran, piensa esa noche tampoco dormí. A ratos Matías alzaba la vista desde el patio y les sonreía, en la habitación del fondo ellos fumaban, hojeaban las revistas; miraban constantemente el zaguán y la calle.
—Nos citó a las nueve y son nueve y media —dijo Jacobo—. A lo mejor no vendrá.
—Aída cambió mucho apenas estuvo con Jacobo —dijo Santiago. Bromeaba, se la veía contenta. En cambio él se puso serio y dejó de peinarse y de cambiarse. No se reía con Aída si alguien lo veía, casi no le dirigía la palabra delante de nosotros. Tenía vergüenza de ser feliz, Carlitos.

Li anteriormente:
Los Jefes (1959)
Lituma nos Andes (1993)
A Guerra do Fim do Mundo (1981)

17 de abril de 2017

25 de Abril – Episódio do Projecto Global


Fernando Pacheco de Amorim
25 de Abril – Episódio do Projecto Global (1996)

Este é um bom livro para se ler no aniversário de uma das datas mais funestas dos quase 900 anos de História de Portugal, fugindo assim à regurgitação que os meios de comunicação do regime promovem, ano após ano, cúmplices na propaganda e no branqueamento dos factos. Um livro, segundo o autor, dirigido sobretudo às novas gerações que, tendo noção do embuste, procuram a informação suprimida que permite interpretar correctamente o curso dos eventos. Que o 25 de Abril não foi aquilo que que consta da narrativa oficial, qualquer pessoa com um mínimo de curiosidade consegue perceber – a “coincidência” da chegada de uma esquadra da NATO ao Tejo no dia 22; o significado do cravo vermelho, símbolo da Revolução (mas também dos Rothschilds e dos banqueiros londrinos), e que, em Portugal, só floresce um mês mais tarde...
A primeira parte do livro debruça-se sobre John Ruskin e Cecil Rhodes, as origens do globalismo, e a forma como as suas ideias se dispersaram discretamente pelo mundo anglo-saxónico, estando na origem de “eventos” que mais não são do que história dirigida. Descreve também como o mundo financeiro, por trás de fundações isentas de impostos, canaliza lucros não tributados para o financiamento do pensamento único, controlando facilmente todos os principais órgãos de informação, comentadores políticos, direcções de Universidades, intelectuais, que reagem em uníssono cada vez que o establishment está em risco, nas habituais manobras de manipulação de opinião pública.
Depois enquadra o 25 de Abril neste esquema geral de eventos, tentando responder às perguntas “O que foi? Quem o promoveu? O que pretendia? Em que resultou?”, agregando os factos isolados num todo coerente que explica a Revolução como um lance mais no grande tabuleiro do globalismo, destinado a arrebatar o Ultramar dos portugueses para o entregar aos obscuros interesses dos que o cobiçavam.
Fernando Pacheco de Amorim segue neste livro um fio de análise não muito vulgar no nosso país, muito menos na época em que foi escrito. O livro peca, talvez, por recorrer demasiadas vezes a alusões veladas, partindo do princípio que o leitor as identificará, o que contradiz a vontade manifestada de se dirigir aos jovens, para quem os factos descritos são já História. É também penoso verificar como em todo o seu texto, enumerando os protagonistas e os agentes por trás do impulso globalista, nem uma única vez denuncie o que a grande maioria têm em comum – à excepção de um único nome perdido no extenso índice onomástico – são judeus! O globalismo, ou NOM, só triunfa enquanto conseguir manobrar nas sombras; uma vez exposto perderá o seu poder. Fernando Pacheco de Amorim desperdiçou aqui uma excelente oportunidade de focalizar um pouco mais o seu ponto.

A oportunidade surgiu quando tive a honra de conhecer e de contactar numerosas vezes com o Senhor Contra-Almirante Pinheiro de Azevedo. Tive então ocasião de perguntar ao Senhor Contra-Almirante a que tinha obedecido a alteração do programa das F.A. e da legislação então publicada, em relação ao Ultramar, isto é, porque não se tinha aguardado uma nova Constituição para então dar cumprimento às resoluções da ONU.
O Senhor Contra-Almirante informou-me então que o que levou a alterar o compromisso assumido pelo MFA perante a Nação, tinha sido uma resolução tomada em reunião do Conselho de Estado. Disse-me que estivera várias vezes para denunciar publicamente este facto, mas que sempre hesitara com o receio de aumentar ainda mais, com a sua revelação, a grande confusão então existente.
Que se passara em tão importante reunião do Conselho de Estado, mantida tão secreta pelos seus membros num País onde não é possível guardar segredos?
Logo me assaltou a suspeita de que só a má consciência dos seus membros poderia conseguir um tal milagre neste País de linguareiros.
O Senhor Contra-Almirante confirmou-me essa suspeita! Na verdade informou-me que em determinada reunião daquele órgão de soberania, o Prof. Freitas do Amaral defendera, numa extensa exposição, que não seria necessário esperar por uma nova Constituição para se dar início ao processo de descolonização, pois que a legislação em vigor permitia que se lhe desse início.
O Senhor Contra-Almirante, ainda a propósito do Prof. Freitas do Amaral, disse-me que após a sua exposição, os militares, embaraçados, se entreolharam, surpreendidos, mas naturalmente sem argumentos para combater os da tese apresentada e que, os restantes membros do Conselho que poderiam ter argumentado dada a sua formação académica, logo se manifestaram em calorosos elogios à proposta apresentada, tendo ficado desde logo decidido dar-se início à descolonização.
Estava dado o primeiro passo de uma grande tragédia.
Tendo, mais tarde, procurado informar-me de quem tinha acesso às actas do Conselho de Estado, para me certificar da exactidão da informação que o Senhor Contra-Almirante me tinha dado, constou-me que o Senhor General Eanes, logo após a tomada de posse da Presidência da República, tendo querido chamar a si aquelas actas e as da Comissão da Descolonização foi informado do seu desaparecimento. Será verdade? Não me surpreende que o seja. Haverá alguém que se surpreenda?

15 de abril de 2017

O Diabo e Outras Histórias


Leon Tolstoi
O Diabo e Outras Histórias (1889)

O conto destacado no título da colectânea (escolhido para o excerto mais abaixo) é, talvez, aquele onde mais claramente se projectam os conflitos pessoais que atormentam tantos personagens de Tolstoi; com forte componente autobiográfica, descreve um proprietário rural que vê a sua obsessão carnal por uma camponesa, incontrolável, sobrepor-se à estabilidade do seu casamento, levando-o ao desespero. Este conto, iniciado em 1889 e várias vezes reescrito (aqui apresentado com dois desfechos diferentes) foi publicado, postumamente, em 1911.
Quanto a Falso Cupom (de 1904 e também editado postumamente), o mais extenso do livro, parte de um pequeno crime cometido por dois jovens — a viciação do cheque da mesada de um deles, apertado por dívidas — que, num efeito de bola de neve, dá início a uma série de roubos e assassinatos. Os criminosos são condenados e encarcerados e, sem se conhecerem entre si, tomam contacto com o Evangelho na prisão, o que os leva à regeneração. Sendo uma das obras tardias de Tolstoi, também publicada postumamente, nela é bem evidente a sua interpretação pessoal do cristianismo, que o levou a entrar em rota de colisão com a Igreja Ortodoxa.
Fazem ainda parte desta edição os contos Três Mortes (1859), Kholstomér (1888) e Depois do Baile (1903).

Depois do café, todos se separaram. Ievguiêni, como de costume, foi para seu escritório. Não se pôs a ler nem a escrever cartas, mas ficou sentado, fumando um cigarro atrás do outro, pensando. Estava terrivelmente surpreso e amargurado com aquele sentimento detestável que nele se manifestava inesperadamente, do qual se considerava livre desde o casamento. Desde então nunca experimentara aquele sentimento, nem por ela, por aquela mulher, nem por qualquer outra, exceto por sua esposa. Muitas vezes em seu íntimo se alegrava por essa libertação, e eis que de repente aquele acaso, que parecia insignificante, vinha lhe revelar que não estava livre. Atormentava-se nesse momento não pelo fato de estar outra vez subordinado àquele sentimento, de desejá-la — nem queria pensar nisso —, mas porque o sentimento ainda estava vivo dentro dele, porque era preciso estar em alerta. No íntimo, não havia nem sombra de dúvida de que acabaria por vencê-lo.
Tinha que responder a uma carta e preencher um documento. Sentou-se à escrivaninha e pôs-se a trabalhar. Quando terminou, esquecido do que o inquietava, deixou o escritório para ir à estrebaria. Outra vez, como por azar, não se sabe se por uma coincidência infeliz ou de caso pensado, mal descera à varanda fechada quando surgiu de um canto uma saia vermelha, um lenço vermelho e ela passou por ele, balançando os braços e se requebrando. Como se não bastasse ter passado, deu uma corridinha, evitando-o como numa brincadeira, e alcançou a companheira.
Outra vez aquele meio-dia, as urtigas, os fundos da cabana de Danila, o rosto sorridente à sombra dos bordos e a folhagem urticante ressurgiram na imaginação dele.
"Não, não posso deixar isso assim" — disse consigo e, depois de esperar que as mulheres sumissem de sua vista, dirigiu-se ao escritório.

Li anteriormente:
A Morte de Ivan Ilitch (1886)
Guerra e Paz (1869)
Ana Karenina (1878)

8 de abril de 2017

The War of the Worlds


H. G. Wells
The War of the Worlds (1898)

Este livro, intitulado A Guerra dos Mundos em português, é o título mais conhecido de H. G. Wells, certamente devendo mais a sua celebridade às inúmeras adaptações que sofreu do que à leitura da obra escrita. A primeira vez que dele tive conhecimento foi, creio, num filme passado na televisão, onde se contava como Orson Welles espalhou o pânico com a sua adaptação radiofónica de 1938.
A história, toda a gente a conhece, trata de uma invasão de marcianos que, armados de tecnologia superior, levam a cabo uma destruição inaudita em Londres e arrabaldes, acabando derrotados pela vida microbiana, contra a qual não estavam preparados.
A ameaça extraterrestre, tema que marcou uma época na literatura FC, terá começado aqui. Nas últimas décadas, um novo entendimento defende que, se uma civilização conseguir um tal avanço tecnológico que lhe permita viajar entre as estrelas (Marte já estava então descartado da possibilidade de albergar vida inteligente), deverá ter uma evolução ética correspondente, que a impeça de fazer a guerra a outras civilizações que encontre... Um pacifismo, sinal dos nossos tempos, que apenas reconhece a sua ética, validada na projecção antropomórfica de um ser humano de sentido único, que não passa de uma construção baseada num desejo. Como explicou Stanislaw Lem em Solaris, a motivação de uma mente alienígena poderá estar muito para além da compreensão humana. E, regressando a The War of the Worlds, é-nos explicado que os marcianos se encontravam em risco de extinção no seu planeta moribundo; a invasão era, para eles, uma questão de vida ou morte.

Suddenly I heard a noise without, the run and smash of slipping plaster, and the triangular aperture in the wall was darkened. I looked up and saw the lower surface of a handling-machine coming slowly across the hole. One of its gripping limbs curled amid the debris; another limb appeared, feeling its way over the fallen beams. I stood petrified, staring. Then I saw through a sort of glass plate near the edge of the body the face, as we may call it, and the large dark eyes of a Martian, peering, and then a long metallic snake of tentacle came feeling slowly through the hole.
I turned by an effort, stumbled over the curate, and stopped at the scullery door. The tentacle was now some way, two yards or more, in the room, and twisting and turning, with queer sudden movements, this way and that. For a while I stood fascinated by that slow, fitful advance. Then, with a faint, hoarse cry, I forced myself across the scullery. I trembled violently; I could scarcely stand upright. I opened the door of the coal cellar, and stood there in the darkness staring at the faintly lit doorway into the kitchen, and listening. Had the Martian seen me? What was it doing now?
Something was moving to and fro there, very quietly; every now and then it tapped against the wall, or started on its movements with a faint metallic ringing, like the movements of keys on a split-ring. Then a heavy body—I knew too well what—was dragged across the floor of the kitchen towards the opening. Irresistibly attracted, I crept to the door and peeped into the kitchen. In the triangle of bright outer sunlight I saw the Martian, in its Briareus of a handling-machine, scrutinizing the curate's head. I thought at once that it would infer my presence from the mark of the blow I had given him.
I crept back to the coal cellar, shut the door, and began to cover myself up as much as I could, and as noiselessly as possible in the darkness, among the firewood and coal therein. Every now and then I paused, rigid, to hear if the Martian had thrust its tentacles through the opening again.
Then the faint metallic jingle returned. I traced it slowly feeling over the kitchen. Presently I heard it nearer—in the scullery, as I judged. I thought that its length might be insufficient to reach me. I prayed copiously. It passed, scraping faintly across the cellar door. An age of almost intolerable suspense intervened; then I heard it fumbling at the latch! It had found the door! The Martians understood doors!
It worried at the catch for a minute, perhaps, and then the door opened.
In the darkness I could just see the thing—like an elephant's trunk more than anything else—waving towards me and touching and examining the wall, coals, wood and ceiling. It was like a black worm swaying its blind head to and fro.
Once, even, it touched the heel of my boot. I was on the verge of screaming; I bit my hand. For a time the tentacle was silent. I could have fancied it had been withdrawn. Presently, with an abrupt click, it gripped something—I thought it had me!—and seemed to go out of the cellar again. For a minute I was not sure. Apparently it had taken a lump of coal to examine.
I seized the opportunity of slightly shifting my position, which had become cramped, and then listened. I whispered passionate prayers for safety.
Then I heard the slow, deliberate sound creeping towards me again. Slowly, slowly it drew near, scratching against the walls and tapping the furniture.
While I was still doubtful, it rapped smartly against the cellar door and closed it. I heard it go into the pantry, and the biscuit-tins rattled and a bottle smashed, and then came a heavy bump against the cellar door. Then silence that passed into an infinity of suspense.
Had it gone?
At last I decided that it had.

Li anteriormente:
The Invisible Man (1897)
The Island of Doctor Moreau (1896)
The Time Machine (1895)

19 de marzo de 2017

El Enigma Capitalista



Joaquín Bochaca
El Enigma Capitalista (1977)

Uma frase, algures, chamou-me a atenção para este livro: afirmava, certamente por outras palavras, que tudo quanto O Capital de Karl Marx fora incapaz de explicar no seu emaranhado de centenas de páginas, estava aqui plasmado de forma evidente e cristalina; Marx nunca teria abordado a essência da natureza do dinheiro, e aí residiria o âmago do capitalismo internacional. Apesar de nunca ter lido Marx (nem estar sequer nos meus projectos fazê-lo), parece-me óbvio que o filósofo judeu nunca esteve interessado em pôr termo ao capitalismo, mas, simplesmente, em transferi-lo dos burgueses para o Estado, mudando apenas o agente explorador.
Apesar de publicado originalmente em 1977, a propósito da crise financeira que então grassava, esta edição data de 2008, aproveitando o estalar de nova crise financeira, desta vez bem mais persistente.
Começando por explicar as razões para o aumento da miséria em plena abundância, o que espanta é a absoluta actualidade do texto, dos mecanismos descritos, a repetição dos processos utilizados e dos resultados obtidos. Em 30 anos (ou serão 130?) não mudou nada, e, bem vistas as coisas, nada poderia mudar, porque a natureza cíclica das crises serve determinados interesses. Como declarou Henry Ford em 1922, «Convém que o povo não perceba como funciona o sistema bancário e monetário, pois se percebesse acredito que haveria uma revolução antes de amanhã de manhã.»
Numa segunda parte, dedicada a fazer a história do designado establishment, a propósito do binómio Alta Finança-Revolução, cujo alcance parece ter sido inteiramente compreendido e aceite por tão poucos, o autor invoca como explicação o geralmente subestimado fenómeno da preguiça mental, e, recorrendo a uma citação de Bernard Shaw, afirma: «Alguns homens prefeririam morrer a pensar. São os mártires da estupidez humana.»
Além do diagnóstico, este livro tem a vantagem de propor a via alternativa, ao que se dedica na sua terceira parte, intitulada “A Solução”, centrada no conceito do Dividendo Nacional. Não uma solução, como sublinha o autor, mas a solução. De leitura obrigatória.

Al entregar su dinero en el banco, los depositarios obtenían un recibo que les entregaba el banquero, y sobre tal recibo —documento, en sí, intachable— se iba a montar el mayor timo de todos los tiempos.
En efecto, el banquero era un hombre observador y pronto se dio cuenta de que la gente utilizaba esos recibos como si de auténtico dinero se tratara. Esos recibos, respaldados por dinero auténtico, hacían la misma función que el dinero, es decir, servían para adquirir mercancías y contratar servicios. Como tales recibos no era nominativos, cualquier persona, que a lo mejor nunca había depositado dinero en el banco, podía presentarse en la ventanilla de pagos del mismo, y, exhibiendo un recibo por una cantidad determinada de dinero oficial, o legal, exigir tal cantidad en el acto. Un inciso imprescindible: decimos dinero oficial, o legal, porque esos recibos, al ser aceptados por la comunidad como medio de pago, se convertían automáticamente, de hecho, en dinero. También se dio cuenta, el banquero, de que, en promedio, los impositores sólo retiraban, en un período determinado de tiempo, el diez por ciento del dinero depositado. O dicho en otras palabras, que el noventa por ciento de sus depósitos permanecían en sus cofres, y que con el diez restante tenía suficiente para hacer frente a los recibos que se le irían presentando al cobro. La tentación era demasiado grande para el banquero, hombre cuya conciencia no sentía excesivamente el embarazo de los escrúpulos, o no podía sentirlos por sus condiciones étnicas y religiosas. Y se formuló a sí mismo la siguiente pregunta: ¿Por qué no poner en circulación más recibos, representando nueve veces más valor que el dinero que, efectivamente, tenía en su caja fuerte? Para él, formular así esa pregunta equivalía a responderla en el sentido deseado por su yo íntimo. Es decir, que multiplicó por nueve sus recibos —comprometiéndose a pagar un dinero que no tenía, o, como máximo, sólo tenía en una novena parte —y empezó a prestarlo a particulares y, sobre todo, a comerciantes, cobrando un interés por ese dinero inexistente. En realidad, más que inexistente, ficticio; pues existencia, aunque fraudulenta, la tenía, al entregarse mercancías y servicios por él. Este fue el fraude original, que ha perdurado hasta nuestros días, y que está en la raíz de todos nuestros males económicos. Como dice Gertrude Coogan, “los banqueros pueden justificar sus prácticas como gusten, pero el hecho es que cuando prestan su ‘crédito’ a interés lo único que hacen es crear dinero privado, que luego pueden reclamar y destruir a su voluntad para desesperación y empobrecimiento del prestatario” quien periodicamente se ve obligado, por la artificial escasez del dinero-crédito, a entregar bienes auténticos por el dinero-crédito que tomó en préstamo.
El banquero, al proceder de esta guisa, efectivamente, ha creado dinero. Y para crearlo lo único que ha necesitado ha sido que un empleado del banco tomara una pluma, o un bolígrafo, y escribiera en el Libro Mayor del banco, una cifra cualquiera, pongamos diez millones de pesetas, en el saldo deudor del prestatario. Pero, al mismo tiempo, en el saldo acreedor del mismo, se ha anotado la garantía que éste ha debido ofrecer contra el préstamo bancario. Dicha garantía, que siempre debe ser un bien tangible, una casa, unos terrenos, unas cosechas o el título de propiedad de una industria, siempre vale más que el dinero que el banco presta. Al prestatario se le entrega un talonario de cheques, que permiten fraccionar cómodamente el importe del préstamo, luego se le carga en cuenta un interés por dicho préstamo, interés que oscila entre un cinco y un nueve por ciento en las épocas relativamente “tranquilas”, pero que puede ser mucho más elevado en las épocas turbias y la operación ha sido puesta en marcha.
Detengámonos un momento para hacer las siguientes observaciones:
a) Al poner en circulación de hecho, más dinero, que aparece en el mercado antes de que el mismo haya podido generar más riqueza, se ha puesto en movimiento un proceso inflacionario, es decir, se ha hecho perder valor al dinero que existía ya en circulación.
b) Las mercancías que, con el nuevo dinero, irán apareciendo en el mercado, llevarán su costo gravado con el interés bancario —como ya hemos dicho, de un 5 a un 9 por ciento— que deberán pagar, en última instancia, los consumidores. Nueva contribución al proceso inflacionario.
c) Mientras el banquero ha entregado sus “promesas de pagar” dinero —pues nadie, por muy banquero que sea, puede crear algo de la Nada, y así, lo que él presta no son más que promesas— en cambio, el prestario ha entregado al banquero títulos que representan una riqueza que, a parte de ser muy superior al préstamo, es real. Ha habido, pues, un notorio abuso de confianza por parte del banco. Como decíamos en otro lugar “mientras el banco dispone contra la comunidad de garantías representando una riqueza real, tal como fábricas, fincas, cosechas, etc. la comunidad no dispone, contra los bancos, de ninguna garantía. La menor tentativa hecha por los acreedores de un banco para ejercitar sus garantías contra éste, pone de manifiesto que dichas garantías, de hecho, no tienen substancia alguna. Si tales acreedores le “aprietan demasiado las clavijas” al banco, son castigados perdiendo todos sus ahorros. El banco cierra sus puertas poniendo de manifiesto que sus “promesas de pagar” son falsas promesas... a menos que el gobierno no acuda en su ayuda con una moratoria.... moratoria cuyas consecuencias serán que, al fin y a la postre, la comunidad en bloque deberá pagar para cubrir las falsas promesas del banquero.

Li anteriormente:
Los Crímenes de los «Buenos» (1982)

28 de febreiro de 2017

The Invisible Man


H. G. Wells
The Invisible Man (1897)

Uma figura completamente enroupada e, ainda, com luvas, óculos escuros, cachecol e um chapéu de aba larga, chega a uma pequena estalagem de aldeia numa noite de Inverno. Esta personagem paga a estadia mas rejeita todas as tentativas de diálogo de circunstância, por parte da estalajadeira e dos aldeãos, para proteger o segredo da sua identidade. Embora todos suponham que as faixas que lhe envolvem a cabeça ocultem alguma desfiguração ou sejam os restos de alguma complicada operação cirúrgica, na verdade trata-se de um homem que, por uma razão não revelada, se tornou invisível. Esta qualidade atinge-o como um estigma e, à medida que, inevitavelmente, ela se evidencia perante a suspeição de quantos o rodeiam, o horror vai tomando conta da situação, enquanto a natureza algo violenta do homem, acossado pela sua condição, toma rédea solta.
A história de Griffin, é esse o nome do Homem Invisível, é contada muito mais tarde, quando, perseguido e tema de manchetes de jornais, procura a ajuda de Kemp, um antigo colega da universidade, e o põe a par do seu trabalho de investigação sobre a invisibilidade e dos resultados que alcançou, ao mesmo tempo que revela uma personalidade desequilibrada, egoísta e desumanizada.
Porém, nessa altura já está em marcha uma implacável caça ao homem, rumo ao desfecho esperado.

Suddenly the stranger raised his gloved hands clenched, stamped his foot, and said, "Stop!" with such extraordinary violence that he silenced her instantly.
"You don't understand," he said, "who I am or what I am. I'll show you. By Heaven! I'll show you." Then he put his open palm over his face and withdrew it. The centre of his face became a black cavity. "Here," he said. He stepped forward and handed Mrs. Hall something which she, staring at his metamorphosed face, accepted automatically. Then, when she saw what it was, she screamed loudly, dropped it, and staggered back. The nose—it was the stranger's nose! pink and shining—rolled on the floor.
Then he removed his spectacles, and everyone in the bar gasped. He took off his hat, and with a violent gesture tore at his whiskers and bandages. For a moment they resisted him. A flash of horrible anticipation passed through the bar. "Oh, my Gard!" said some one. Then off they came.
It was worse than anything. Mrs. Hall, standing open-mouthed and horror-struck, shrieked at what she saw, and made for the door of the house. Everyone began to move. They were prepared for scars, disfigurements, tangible horrors, but nothing! The bandages and false hair flew across the passage into the bar, making a hobbledehoy jump to avoid them. Everyone tumbled on everyone else down the steps. For the man who stood there shouting some incoherent explanation, was a solid gesticulating figure up to the coat-collar of him, and then—nothingness, no visible thing at all!
People down the village heard shouts and shrieks, and looking up the street saw the "Coach and Horses" violently firing out its humanity. They saw Mrs. Hall fall down and Mr. Teddy Henfrey jump to avoid tumbling over her, and then they heard the frightful screams of Millie, who, emerging suddenly from the kitchen at the noise of the tumult, had come upon the headless stranger from behind. These increased suddenly.

Li anteriormente:
The Island Of Doctor Moreau (1896)
The Time Machine (1895)

11 de febreiro de 2017

La Isla de los Jacintos Cortados

Gonzalo Torrente Ballester
La Isla de los Jacintos Cortados (1980)

O autor escreve de forma epistolar, dirigindo-se a Ariadna, contando-lhe tudo quanto aconteceu desde que a conheceu. Escreve na pele de um professor universitário espanhol, algures nos Estados Unidos, e Ariadna é uma grega, aluna (e algo mais...) de um seu colega, Alain Sidney, também conhecido por Claire, descendente de um reconhecido poeta britânico, sir Ronald Sidney. Claire acaba de editar um livro, onde defende que Napoleão não existiu – terá sido uma criação deliberada –, tese que põe em risco a sua credibilidade académica e a cátedra; mas encontra-se ausente do campus e essa circunstância leva Ariadna ao contacto com o escritor, acabando por viver os dois, durante um curto espaço de algumas semanas, na cabana de uma pequena ilha dos arredores, denominada Ilha dos Jacintos Cortados.
Entretanto é-nos dito que Claire tentava ligar a personalidade de Ariadna à de Agnesse, uma mulher com quem sir Ronald Sidney manteve uma relação amorosa na pequena ilha mediterrânica de La Gorgona (que também se conhece por Ilha dos Jacintos Cortados), no tempo que se seguiu a uma revolução motivada pela Revolução Francesa, para, através de uma, conhecer melhor a outra. O escritor, através de métodos divinatórios, tenta também descobrir o que se passara em La Gorgona, ilha que aparenta conter a chave da questão levantada pelo livro de Claire, para mostrá-la a Ariadna, presencialmente ou através da escrita, com o fim de a impressionar e seduzir, completando assim o triângulo amoroso. Deste modo se acrescenta um bom punhado de personagens e se desloca o centro narrativo deste romance pouco linear, onde a realidade e a fantasia se fundem.
Apesar de Gonzalo Torrente Ballester afirmar, no prólogo, ser este livro «mero divertimento e descanso [escrito] ao longo de um ano preenchido por outro género de trabalhos», na verdade não se afigura de leitura muito fácil, com parágrafos de grande extensão e diálogos colocados entre aspas, sem translineação. Contudo, se na forma é um tanto monótono, a narrativa acaba por se impor, inventiva e imprevisível.

Verás que son combinaciones ternarias, las únicas posibles. Verás que Talía va siempre en medio: así, las manos de sus hermanas la sostienen. Hay quien afirma que las varias figuras carecen de finalidad práctica, que no pasan de mero ejercicio estético, o, si acaso, matemático; pero no falta quien sostenga que depende del viento, de su duración y de su fuerza. Las escasas veces que llueve en la Isla, las Hermanas quedan detrás de los cristales, y esa noche los amantes se sienten libres, y los esposos abren las ventanas de las alcobas, y hasta los solitarios se regocijan: nueve meses después suelen nacer muchos niños. Fíjate cómo pasan y repasan delante de aquella ventana, cómo se posan en el alféizar como si fueran aves, cómo dejan caer un papelito: mañana el marido o la mujer leerán algo parecido a esto: «¡Cochinos! ¡Ya lo habéis hecho tres veces esta semana!». Recorren todas las casas de la ciudad, todas las calles, todos los recovecos. La gente se aplasta contra el pavimento, se emboza en las sombras; los despiertos en el lecho simulan sueños de muerte, mientras, ocultas, las manos se oprimen y se prometen. Cuando se han alejado las Parcas, un movimiento tímido precede al furor apresurado con que se quiere recuperar el tiempo. La Vieja dicta a la Tonta lo que van averiguando, nombres de las personas, qué hacían cuando las sorprendieron, y la Tonta escribe sin dejar de volar, en un largo papel que lleva en la mano: cuando escribe, la Muerta, agarrada únicamente a la Vieja, queda en desequilibrio y como colgada, pero no llega a caer, porque la Tonta es rápida escribiendo, y pronto recompone el equilibrio. Son como aves de presa: ascienden, escrutan y caen en picado sobre el conejo incauto: «¡Cochinos!». «¿Y si vuelven?» «¡Malo será que vuelvan!» A veces sí, las Hermanas repiten la ronda, pero, en cualquier caso, antes que el alba despierte, abandonan el aire y entran en un cuartucho de la Señoría, donde un funcionario de guardia recibe las denuncias y las apunta en ese enorme libro de tapas negras: nombre de los pecadores, delito, cuantía de la multa, o pasar a los jueces el tanto de culpa.
Si has seguido con atención el vuelo de las Hermanas, habrás visto cómo se detuvieron un momento en la terraza de la viuda Fulcanelli; que la Muerta y la Tonta quedaron en la ventana, y que la Vieja penetró en el interior de la casa, como que se acercó al lecho de Agnesse y le espió el sueño, y después hizo un mohín –que en su cara fue mueca de incomprensión y de indiferencia. Al regresar a casa, al repasar frente a la Señoría, advierten que Ascanio Aldobrandini, abierto el mirador, contempla las estrellas. La Vieja pregunta a la Tonta: «¿Qué hará a estas horas despierto nuestro sobrino? ¿No te parece raro?». La Tonta debió de repetirlo en voz demasiado alta, porque Ascanio la oyó y cerró. A la tercera ronda, Ascanio ya no estaba.
«La poesía –dijiste entonces– es un amontonamiento de nubes que se pintan de gris y de púrpura y que te impiden ver al sol caer en el horizonte. Lo que yo necesito es una explicación racional de por qué esos fantasmas han venido a espiarnos, me han mirado con esos ojos muertos, me han insultado.» Tuve que responderte: «Es muy posible que la explicación que requieres se pueda recabar de Claire: él entiende de todo». Tú, entonces, te volviste hacia la pared: «Vete ya, por favor; cuida de que las puertas y las ventanas queden cerradas».

Li anteriormente:
Crónica del Rey Pasmado (1989)

26 de xaneiro de 2017

Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido


Rui Mateus
Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido (1996)

Não tenho por hábito ler livros sobre política escritos por esquerdistas, mas este Contos Proibidos tem um rasto de lenda que me espicaçou a curiosidade. Publicado em 1996 pela Dom Quixote, o livro, da autoria de um dos fundadores do PS, rapidamente desapareceu dos escaparates para nunca mais voltar a ser reeditado; aparentemente, na "democracia consolidada" portuguesa, ainda há livros proibidos. Quanto a Rui Mateus, diz-se que deixou Portugal desde então, por uma questão de segurança pessoal, tendo como destino a Suécia e os EUA; o certo é que foi "apagado" da memória do partido que ajudou a fundar.
Contos Proibidos descreve a história do Partido Socialista, desde os tempos em que não passava de uma obscura agremiação clandestina, maioritariamente formada por burgueses exilados com ligações à maçonaria, até ao caso Emaudio no início dos anos 90, tendo por pano de fundo as constantes e pouco claras situações do financiamento partidário. Diga-se, de passagem, que foi o caso Emaudio, aqui minuciosamente explicado e dissecado, que levou o autor à ostracização pelo partido, e não a publicação deste livro.
Descrevem-se igualmente numerosas viagens e encontros no estrangeiro em que Rui Mateus, como responsável pelas relações internacionais do PS, esteve presente. Entre as mais pitorescas, estão uma viagem a Milão, em Setembro de 1977, onde foi recolher meio milhão de dólares «oferecido» pelo PSI do futuro foragido à justiça Bettino Craxi, de cuja origem e justificação não fez a mais pequena ideia (e muito menos perguntas); e também a descrição de uma viagem à República Dominicana em 1978, acompanhando Soares e outros delegados da Internacional Socialista, para ajudar à eleição de um candidato presidencial nas eleições locais, descrevendo um comício que foi uma autêntica fantochada, terminando tudo com um bom golpe militar à moda sul-americana.
Sobre a sua figura de proa, Mário Soares, é-nos descrita a sua colossal ambição, aliada a uma superficialidade ideológica e uma impreparação para o exercício do poder verdadeiramente notáveis. Particularmente impressionante é a descrição da forma como Soares, ex-militante comunista, recorde-se, concebeu o PS como um partido satélite do PCP, sem maior ambição que um conceito de "unicidade" que tomou de empréstimo a François Mitterrand; e, enquanto procurava o financiamento do PS entre os partidos social-democratas europeus inscritos na IS, na frente interna os aliados escolhidos eram Santiago Carrillo, Cuba, Roménia ou Coreia do Norte, por exemplo. É necessário compreender o que se passou no I Congresso do PS, em Dezembro de 1974, quando os infiltrados do PCP (a sucursal da União Soviética em Portugal) quase se apoderaram do partido, para interpretar a absurda viagem que Soares fez a Moscovo, duas semanas depois, para prestar vassalagem ao Kremlin – o que lhe valeu o epíteto de «Kerensky português».
Apesar de discordar frontalmente de muitos considerandos e avaliações de Rui Mateus, valorizo a descrição crua dos factos (apesar das frequentes gralhas e, até, erros de ortografia), profusamente documentada por notas de rodapé. Confirma-se que devemos agradecer a Mário Soares o ter levado os comunistas pela mão para o I Governo Provisório, após o golpe de 25 de Abril, no cumprimento de um acordo que tinha assinado com eles em 1973 em Paris, com todas as consequências que ainda hoje se fazem sentir. A situação a que Portugal chegou tem muitos responsáveis, e Mário Soares está entre os principais, apesar da "canonização" que as televisões e a generalidade da imprensa tentou promover aquando da sua recente morte.

Os incidentes do 1.º de Maio, felizmente para o PS, contribuíram para a ruptura definitiva, dado que muitos observadores internacionais, depois de tudo o que se passara até então, ainda se perguntavam porque razão quereriam ainda os socialistas celebrar o 1.º de Maio conjuntamente com o PCP. O assalto ao jornal República, a 19 de Maio, juntamente com a vitória eleitoral nas eleições para a Assembleia Constituinte seriam a «gota de água» que levaria a Europa a seguir o caminho que os EUA já tinham iniciado por sugestão de Carlucci, com o apoio dos homens de Langley contra o Departamento de Estado. Aliás o receio de alguns governos europeus de não ficar atrás dos Americanos serviria de leit motiv, para a determinação europeia. Contudo, se é evidente para muitos, mesmo muitos socialistas, que foi o discurso de Zenha que desencadeou a ruptura com o PC, não é ainda claro para a grande maioria que a mudança de Mário Soares só teria lugar após os incidentes do 1.º de Maio, no estádio com o mesmo nome. Foi a sua «vaidade» ferida, ao não o deixarem entrar na tribuna daquele estádio, impedindo-o de estar ao lado de Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, para onde este se dirigira, que precipitou a sua ruptura com o PC. Até então, como comprova todo o seu comportamento até àquela data, Henry Kissinger tinha razão em o considerar o «Kerensky» português. Durante os últimos doze meses alimentara esperanças em relação ao Programa Comum com o PC, que só não se concretizara porque os comunistas o não quiseram a seu lado. «A falta deve-se unicamente aos comunistas». Senão tivesse então ocorrido tal incidente e Soares, despeitado, não passasse também ao ataque, que viria a ter como pano de fundo o conhecido slogan — «Soares e Zenha não há quem os detenha» — é provável que ainda em 1975 tivesse ocorrido uma cisão no seio do próprio Partido Socialista, com o afastamento do secretário-geral. A tal não acontecer, dada a lealdade demonstrada por Salgado Zenha, o resultado teria sido, pelo menos, a transferência do apoio americano para Sá Carneiro, que atrairia a si grande parte do movimento socialista. E, por essa via, o posterior reconhecimento do seu partido pela Internacional Socialista.
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Mário Soares é quase unanimemente considerado um homem de grande coragem política. Pode ser essa a ideia que ele faz de si próprio, mas eu considero que uma mistura de «ousadia calculada» com um apurado sentido da contra-informação seria uma descrição mais adequada. Em Janeiro de 1975, o primeiro socialista a romper com o PCP seria Salgado Zenha. Entretanto e apesar de Soares só ter seguido o seu exemplo quatro meses depois seria ele que viria a ser conotado com esse rompimento curricular. O enfrentamento de Mário Soares com os comunistas é relativamente serôdio e teve lugar quando o País já se apercebera de que o PCP era minoritário. Em Novembro, Soares seria a face visível da «Resistência», mas a partir do Norte do País e com a garantia de que os serviços secretos anglo-americanos não ficariam parados. Em 1975 e 1976 Salgado Zenha abriria o caminho ao apoio económico ocidental a Portugal, mas não seria «convidado» para integrar o I Governo Constitucional. Os louros dessa tarefa viriam todos cair na mão de Mário Soares. Em 1978, enquanto primeiro-ministro, enfrentaria militares indispostos na sua visita à República Dominicana mas, além de ser primeiro-ministro, tinha o apoio do presidente Carter e chegara num avião da Presidência da República do México e sairia noutro da Presidência da República da Venezuela. Fizera também nesse ano um arriscado acordo político com o CDS, mas após obtida a cobertura de esquerda dos «ex-MES». Decidiu finalmente enfrentar Eanes em 1980, mas tinha apoios financeiros e apoiantes suficientes para arriscar e sabia de antemão que não fazê-lo representaria o fim da sua carreira política. Foi um acto de ousadia calculada, em que teria sempre a garantia de apoio dos chamados «históricos» do PS.