10 de setembro de 2017

Las Fuerzas Extrañas

Leopoldo Lugones
Las Fuerzas Extrañas (1906)

A obra de Leopoldo Lugones estende-se à poesia, ao ensaio, aos estudos académicos e também à narrativa breve, onde foi um brilhante percursor dessa tradição argentina à qual se dedicou durante mais de quarenta anos. Esta faceta está reunida, de forma não exaustiva, em quatro livros publicados entre 1905 e 1924.
Las Fuerzas Extrañas é um desses livros, composto por doze contos seguido de uma cosmogonia esotérica, escritos entre 1897 e 1906; três ou quatro contos seguem uma linha de proto-FC com afinidades a H. G. Welles e os restantes debruçam-se sobre questões parapsicológicas ou metafísicas, ou remetem para o campo mitológico ou lendário, alguns deles em aproximação ao universo de Edgar Allan Poe. Cada um destes doze contos, segundo o prefácio, explora temas caros à teosofia. O texto final tem características diferentes: é a transcrição de um relato, em dez lições, a que se somam um prólogo e um epílogo dados pelo ouvinte desse relato, destinado a fornecer o enquadramento teórico geral para os textos que o precedem.
Las Fuerzas Extrañas vinha referenciado como um pioneiro da ficção-científica argentina. Mas não será bem assim – no cômputo geral insere-se melhor na literatura fantástica de tradição romântica. De grande utilidade é o “estudo preliminar”, à laia de prefácio, de Pedro Luis Barcia, que analisa detalhadamente cada um dos textos e fornece o adequado contexto.

Apenas dos o tres especies de aves cuyas alas no tenían plumas, sino escamas como las de las mariposas, y cuyo tornasol preludiaba el oro inexistente, remontaban su vuelo por la atmósfera fosfórica.
Era ella tan elevada, y el vuelo tan vasto, que las llevaba cerca de la luna. El arrebato magnético del astro solía embriagarlas; y como éste poseía entonces una atmósfera en contacto con la terrestre, afrontábanla en ímpetu temerario yendo a caer exánimes sobre sus campos de hielo.
Una vegetación de hongos y de líquenes gigantes arraigaba en las aún mal seguras tierras; y no lejanos todavía del animal, en la primitiva confusión de los orígenes, algunos sabían trasladarse por medio de tentáculos; tenían otros, a guisa de espinas, picos de ave, que estaban abriéndose y cerrándose; otros fosforecían a cualquier roce; otros frutaban verdaderas arañas que se iban caminando y producían huevos de los cuales brotaba otra vez el vegetal progenitor. Eran singularmente peligrosos los cactus eléctricos que sabían proyectar sus espinas.
Los elementos terrestres se encontraban en perpetua inestabilidad. Surgían y fracasaban por momentos disparatadas alotropías. La presión enorme apenas dejaba solidificarse escasos cuerpos. Las rocas actuales dormían el sueño de la inexistencia. Las piedras preciosas no eran sino colores en las fajas del espectro.
Así las cosas, sobrevino la catástrofe que los hombres llamaron después diluvio; pero ella no fue una inundación acuosa, si bien la causó una invasión del elemento líquido. El agua tuvo intervención de otro modo.

1 de setembro de 2017

Revolta Contra o Mundo Moderno



Julius Evola
Revolta Contra o Mundo Moderno (1934)

Há menos de três anos o nome de Julius Evola era para mim absolutamente desconhecido. Uma série de artigos publicados num semanário prenderam-me a atenção e, desde então, devo ter lido centenas de páginas em artigos e excertos da sua obra. Estas leituras não só o transformaram, a meus olhos, no mais importante pensador do séc. XX, como me levaram a outros filósofos – René Guénon, por exemplo nas referências aí contidas.
Datado de 1934 – e certamente objecto de revisões em edições posteriores, pois refere-se factos sucedidos após essa data – Revolta Contra o Mundo Moderno é, como eu já sabia, uma análise demolidora da modernidade, das suas crenças e fundamentos, da causas da involução e degradação civilizacional que atinge o Ocidente em geral e a Europa em particular; Evola descreve as características da civilização tradicional e os factores que, uma vez postos em marcha, a arrastam fatalmente à queda. Por isso não existe aqui qualquer réstia de esperança; identificado tempo presente como a Idade última, que antecederá uma restauração das condições primordiais (em Evola o tempo é cíclico e não linear), não nos caberá viver o novo amanhecer. Neste combate de causa perdida, «preocupemo-nos só com uma coisa: manter-nos de pé num mundo de ruínas».
Essa será a precisa razão porque Julius Evola continuará a ser um ilustre desconhecido: num mundo em que o materialismo triunfou sobre a espiritualidade, as suas ideias e os valores que promove parecem deslocados, ultrapassados, para além da “razoabilidade”ninguém gosta de más notícias, o discurso do “progresso” parece muito mais atraente. Daí a profunda cortina de silêncio sobre o autor e respectiva obra, a desvalorização e o enviesamento – basta ler o que qualquer enciclopédia corriqueira dirá sobre ele, suficiente para afugentar quem lá tiver chegado por acaso –, quando não o apagamento puro e simples.

É uma palavra de ordem que faz parte das convenções da historiografia moderna a exaltação polémica da civilização do Renascimento contra a medieval. Se não se tratasse de uma das numerosas sugestões difundidas na cultura moderna pelos dirigentes da subversão mundial, teria de se ver nisso a expressão de uma incompreensão típica. Se, depois do fim do mundo antigo, houve uma civilização que tenha merecido o nome de Renascimento foi precisamente a Idade Média. Na sua objectividade, no seu «virilismo», na sua estrutura hierárquica, na sua soberba elementaridade anti-humanística, tão frequentemente penetrada de sacro, a Idade Média foi como que uma nova chama do espírito da civilização una e universal das origens. A verdadeira Idade Média surge-nos sob características clássicas, e em nada românticas. O carácter da civilização que se lhe sucedeu tem um significado totalmente diferente. A tensão que durante a Idade Média tinha tido uma orientação essencialmente metafísica degrada-se e muda de polaridade. O potencial anteriormente recolhido sobre a direcção vertical — para cima, como no símbolo das catedrais góticas — descarrega-se no presente na direcção horizontal, para fora, produzindo, por sobressaturação de planos subordinados, fenómenos capazes de sensibilizar o observador superficial: na cultura a irrupção tumultuosa de múltiplas manifestações de uma criatividade quase totalmente privada de toda a base tradicional ou meramente simbólica, e portanto profana e dessacralizada; no plano exterior, a expansão quase explosiva dos povos europeus no conjunto de todo o mundo no período dos Descobrimentos, das explorações e das conquistas coloniais, que corresponde mais ou menos ao do Renascimento e do Humanismo. São os efeitos de uma libertação de forças idêntica à que se produz durante a decomposição de um organismo.
Pretendeu-se ver no Renascimento, em muitos dos seus aspectos, um retomar da civilização antiga, descoberta de novo e reafirmada contra o sombrio mundo do cristianismo medieval. Trata-se de um grave equívoco. O Renascimento só retomou do mundo antigo formas decadentes, e não as das origens, que estavam penetradas de elementos sacros e suprapessoais, ou então retomou-as desprezando completamente estes elementos e utilizando a herança antiga numa direcção absolutamente diferente. No Renascimento a «paganidade», de facto, serviu essencialmente para desenvolver a simples afirmação do Homem, para fomentar uma exaltação do indivíduo, que passa a inebriar-se com as produções de uma arte, de uma erudição e de uma especulação privadas de qualquer elemento transcendente e metafísico.
[...]
No seu sentido mais geral, o humanismo pode-se dizer que é o estigma e a palavra de ordem de toda a civilização que se libertou das «trevas da Idade Média». Com efeito, esta civilização já só conhecerá o homem: é no homem que começarão e acabarão todas as coisas; é só no homem que assentam os céus e os infernos, as glorificações e as maldições que agora serão conhecidas. É este mundo — o outro do verdadeiro mundo — com as suas criações da febre e da sede, com as suas vaidades artísticas e os seus «génios», com a selva das suas máquinas e das suas fábricas e, por fim, com os seus chefes populares, que constituirá o limite para o homem.
A primeira forma sob a qual aparece o humanismo é o individualismo. Este caracteriza-se pela constituição de um centro ilusório fora do centro verdadeiro, como pretensa prevaricação de um «Eu» que é simplesmente o mortal do corpo — e como construção por meio de faculdades puramente naturais, que agora criam e defendem, através das artes e ciências profanas, aparências diferentes que, fora deste centro falso e vazio, não têm a menor consistência; verdades e leis essas marcadas pela contingência e pela caducidade próprias de tudo o que pertence ao mundo do devir.
Daí, um irrealismo radical, uma radical organicidade em tudo o que é moderno. Tanto por dentro como por fora, já nada será vida, tudo será construção: ao ser agora extinto, substituem-se em todos os aspectos o «querer» e o «Eu», como que num sinistro sustentáculo racionalista e mecanicista de um corpo morto. Tal como no pulular vermicular das putrefacções, desenvolvem-se então as mil conquistas, as mil superações e as mil criações do homem novo. Abre-se o caminho a todos os paroxismos, a todas as manias inovadoras e iconoclastas, a todo um mundo de uma retórica fundamental em que, tendo-se substituído o espírito pela imagem do espírito, já não conhecerão limites as fornicações incestuosas do homem nos campos da religião, da filosofia, da arte, da ciência e da política.

24 de agosto de 2017

Volfrâmio

Aquilino Ribeiro
Volfrâmio (1943)

Os restos mortais de Aquilino Ribeiro foram trasladados em 2007 para o Panteão Nacional, facto que, nos tempos que correm, não constitui propriamente a melhor das recomendações. O escritor associou-se, durante a juventude, à maçonaria e ao terrorismo carbonário, foi perseguido e encarcerado por conspiração durante a Monarquia. Após a Revolução Nacional de 1926 foi novamente preso, por participação numa revolta, e evadiu-se para França, onde já tinha permanecido em diferentes períodos desde a implantação da República. A partir de 1933, com a atribuição de prémios literários e o reconhecimento da sua obra, Aquilino parece ter esmorecido a veia «activista», excepção feita no apoio da candidatura à presidência de Humberto Delgado, em 1957; contudo, nunca deixou de ser persona non grata no Estado Novo. É considerado um dos romancistas portugueses mais notáveis da primeira metade do séc. XX, e este título está entre os mais representativos da sua obra.
Volfrâmio decorre nos anos da II Guerra Mundial, num ambiente de ruralidade que há muito desapareceu. A exploração desse minério valioso, disputado na indústria bélica, e a miragem de riqueza que proporciona da noite para o dia, afecta profundamente a aldeia e o quotidiano de quantos nela vivem, modificando comportamentos, corroendo a comunidade, deixando um rasto de morte. O volfrâmio, diz uma personagem, «...só lhes serviu para ganhar vícios e maus costumes. Como havia de dar pão uma coisa que é para matar...?!»
A prosa de Volfrâmio é escorreita e atractiva, apesar da catadupa de regionalismos e da escolha de um vocabulário que me obrigaram a interromper constantemente a leitura — obrigado, Priberam!

Lavradores patudos, tão fonas como suspicazes, que noutros tempos seriam insusceptíveis de arriscar uma coroa com o veterinário, se tinham a vaca doente, ou ir à consulta do subdelegado de saúde, se lhes sobreviesse uma tifóide, associavam-se uns com os outros, desmentindo o princípio de que o português era um primário na fase da inaglutinação.
Associavam-se às três pancadas e um pouco à toa revolviam o solo onde aflorasse veio de quartzo, ou qualquer filão encasquetado em granito, rasgando valados e fojos absurdos. Por montes e vales a terra aparecia picada desta furunculose, esvurmadoiros de saibro e rimas de pedra, estilhaçada a pólvora bombardeira e a gatilho. O resultado as mais das vezes era calamitoso. Mas no meio da vesânia geral não havia maneira de um insucesso pôr entraves aos despaurérios da cobiça. Cavavam onde lhes sugeria o sonho, onde punham nada mais que o palpite, à falta dum indicador no género do Livro de S. Cipriano, e em muitos casos sem outra razão que a de serem donos de duas aguilhadas de saibro ou de fraga.
— Vamos experimentar na belga — avisava-se de dizer um belo dia o visionário à tribo congregada. — Pode ser que lá se encontre mamara.
A mamara era o volfro, porque às qualidades nutritivas do leite maternal reunia a vantagem de ser grato Deo. E, dito e feito, viravam a courela desde os penetrais ao húmus. Esgaivavam na seara e no maninho, por baixo das casas e das ruas, e para as bandas do Ladário o fosso foi de tal ordem que se assapou sobre os pesquisadores a capela dum santo. Nas arribas a pique do Cairria, cerca da ponte da Mizarela, trabalhavam firmados em andaimes sucessivos, suspensos por amarras do alto cairel. Uma martelada imprudente cortou a corda e três homens vieram britar-se nos abismos rochosos da torrente. Aqui era uma família que fazia a lavra por sua conta e risco, além um poviléu inteiro que, animado de espírito comunal, manobrava a toque de sino a picareta e a enxada. E acontecia da manhã para a noite ficarem uns podres de ricos, devorarem outros o seu e o alheio.

19 de agosto de 2017

To Sail Beyond The Sunset



Robert A. Heinlein
To Sail Beyond The Sunset (1987)

To Sail Beyond The Sunset é o último livro do ciclo Future History, o terceiro da sub-divisão The World as Myth, publicado no ano anterior ao da morte de Heinlein. O livro é centrado na personagem de Maureen Johnson, mãe de Lazarus Long, que assume o papel de narradora, na primeira pessoa. Maureen, foi apresentada ao leitor na parte final de Time Enough for Love, quando Lazarus viaja no tempo até à sua infância; em The Number of The Beast, Lazarus, com a ajuda das quatro personagens principais e da sua nave senciente Gay Deceiver, concebem uma manobra que resulta na resgate de Maureen, retirada do seu tempo no momento em que historicamente morre por acidente, para ser transportada para Tertius no futuro distante onde Lazarus e o seu clã vivem. Em The Cat Who Walks Through Walls, Maureen era já uma das personagens secundárias integradas no círculo familiar de Lazarus. Daqui facilmente se poderá deduzir que To Sail Beyond The Sunset é novamente ambientado na temática dos universos paralelos, tornada preponderante a partir de The Number of The Beast; na realidade, contém numerosas referências a factos passados nos livros anteriores, mas quatro quintos deste tomo não não têm qualquer assomo de ficção científica.
No capítulo 1 encontramos Maureen, acompanhada de Pixel (o gato que atravessa as paredes), aparentemente apanhada num universo paralelo que não consegue identificar nem se recorda como lá chegou; o desenvolvimento dessa situação é retomado normalmente nos escassos primeiros parágrafos de cada um dos capítulos seguintes, acabando por se mencionar a sua integração no já conhecido Time Corps – uma organização que interfere em diversas linhas temporais tentando “consertar” a História, ou seja, fazer com que ela decorra “no bom sentido”. Será necessário esperar pelos três últimos capítulos para o desenlace desta trama. Entretanto, o grosso de To Sail Beyond The Sunset acompanha em retrospectiva a vida de Maureen Johnson, desde a sua adolescência, em finais do séc. XIX. A educação transmitida pelo pai, Ira Johnson, a revelação dos planos da Howard Foundation, ainda nos primórdios; depois a vida adulta e familiar, o casamento com Brian Smith (personagem que reúne várias características autobiográficas), o nascimento dos dezassete filhos. Como pano de fundo, o panorama histórico da época – as guerras, as mudanças tecnológicas, as convulsões sociais – o que dá a Heinlein a oportunidade para um pequeno e incisivo ajuste de contas com o séc. XX, do qual o excerto abaixo transcrito é um belíssimo exemplo.
O tempo narrativo decorre mais lentamente até aos anos da Grande Guerra – quando se revisita o encontro de Maureen e Lazarus (sob o nome Theodore Bronson) em 1917, já descrito em Time Enough For Love, agora sob a perspectiva de Maureen – e vai progressivamente acelerando à medida que passa pela Terça-feira Negra de 1929, pela II Guerra Mundial e pelas décadas seguintes, com uma paragem em 1952 para descrever com detalhe a relação conflituosa com dois filhos adolescentes; volta a abrandar depois, no capítulo 23, para efectuar a ligação ao argumento de The Man Who Sold the Moon. O capítulo seguinte resume os anos decorridos até 1982, e termina com a sua morte e renascimento em Tertius. E tudo isto com um grande enfoque na sua vida sexual ou dos seus familiares. Nesse aspecto, não fica pedra sobre pedra: os homens deste livro têm uma forte vontade de usar um grande par de chifres, há swingers com fartura e o incesto é coisa pouca – como, aliás, já se havia visto nos livros anteriores. A diferença, aqui, é que o tempo histórico e o fundo sociológico não servem de desculpa, ao contrário de outras circunstâncias verificadas ao longo da Future History (por exemplo em The Moon is a Harsh Mistress).
Isto leva-nos directamente à análise das ideias que Robert A. Heinlein veicula através das suas personagens. Recorde-se que Heinlein seguiu uma carreira militar, a qual se viu forçado a abandonar, por motivos de saúde, aos 27 anos; por isso não surpreende a sua tendência para valorizar a ordem e a hierarquia nem o facto de ser referir sempre em termos apologéticos à instituição militar e respectivos valores. Natural do estado do Missouri, no midwest, a cultura do chamado “Bible Belt” deve tê-lo vacinado de algum modo, pois tornou-se ateu. Apesar do desenfreamento das personagens e das constantes agulhadas à moral e crenças cristãs, isso não transborda da sua esfera privada e participam na vida religiosa da comunidade, cuidando de manter as aparências; afirma-se, algures no capítulo 7, que o Maio de 68 não trouxe o “comportamento de uma cultura verdadeiramente livre; foi apenas a oscilação do pêndulo”. Apesar das mulheres desinibidas que estão no centro deste livro – e noutros da mesma série –, a igualdade de direitos nunca se confunde com o feminismo, pois elas interiorizam e assumem simultaneamente a sua posição mais ou menos tradicional na sociedade. Para além de todas estas contradições há outra ideia, mais que subliminar, a atravessar a narrativa e que se poderia resumir na frase «In Money we trust»... Inicialmente um democrata, Heinlein acabou por se aproximar dos republicanos, embora se considerasse libertário. Acusado de quase tudo – libertino, fascista, fetichista, racista, etc. – este escritor é mais um produto da cultura estado-unidense (ou da falta dela), liberal, eminentemente materialista, e incongruente até ao fim.

Time line three, code Neil Armstrong, is the native world of my sister-wife Hazel Stone (Gwen Campbell) and of our husband Dr Jubal Harshaw. This is an unattractive world in which Venus is uninhabitable and Mars is a bleak, almost airless desert, and Earth itself seems to have gone crazy, led by the United States in a lemming-like suicide stampede.
I dislike studying time line three; it is so horrid. Yet it fascinates me. In this time line (as in mine) United States historians call the second half of the twentieth century the Crazy Years — and well they might! Hearken to the evidence:
a) The largest, longest, bloodiest war in United States history, fought by conscript troops without a declaration of war, without any clear purpose, without any intention of winning — a war that was ended simply by walking away and abandoning the people for whom it was putatively fought;
b) Another war that was never declared — this one was never concluded and still existed as an armed truce forty years after it started... while the United States engaged in renewed diplomatic and trade relations with the very government it had warred against without admitting it;
c) An assassinated president, an assassinated presidential candidate, a president seriously wounded in an assassination attempt by a known psychotic who nevertheless was allowed to move freely, an assassinated leading Negro national politician, endless other assassination attempts, unsuccessful, partly successful, and successful;
d) So many casual killings in public streets and public parks and public transports that most lawful citizens avoided going out after dark, especially the elderly;
e) Public school teachers and state university professors who taught that patriotism was an obsolete concept, that marriage was an obsolete concept, that sin was an obsolete concept, that politeness was an obsolete concept — that the United States itself was an obsolete concept;
f) School teachers who could not speak or write grammatically, could not spell, could not cipher;
g) The nation's leading farm state had as its biggest cash crop an outlawed plant that was the source of the major outlawed drug;
h) Cocaine and heroin called ‘recreational drugs’, felonious theft called ‘joyriding’, vandalism by gangs called ‘trashing’, burglary called ‘ripping off’, felonious assault by gangs called ‘mugging’ and all of these treated as ‘boys will be boys’, so scold them and put them on probation but don't ruin their lives by treating them as criminals;
i) Millions of women who found it more rewarding to have babies out of wedlock than it would be to get married or to go to work.
I don't understand time line three (code Neil Armstrong) so I had better quote Jubal Harshaw, who lived through it. ‘Mama Maureen,’ he said to me, ‘the America of my time line is a laboratory example of what can happen to democracies, what has eventually happened to all perfect democracies throughout all histories. A perfect democracy, a "warm body" democracy in which every adult may vote and all votes count equally, has no internal feedback for self-correction. It depends solely on the wisdom and self-restraint of citizens... which is opposed by the folly and-lack of self-restraint of other citizens. What is supposed to happen in a democracy is that each sovereign citizen will always vote in the public interest for the safety and welfare of all. But what does happen is that he votes for his own self-interest as he sees it... which for the majority translates as "Bread and Circuses".
‘"Bread and Circuses" is the cancer of democracy, the fatal disease for which there is no cure. Democracy often works beautifully at first. But once a state extends the franchise to every warm body, be he producer or parasite, the day marks the beginning of the end of that state. For when the plebs discover that they can vote themselves bread and circuses without limit and that the productive members of the body politic cannot stop them, they will do so, until the state bleeds to death, or in its weakened condition the state succumbs to an invader — the barbarians enter Rome.’

Li anteriormente:
The Cat Who Walks Through Walls (1985)
The Number of the Beast (1979)
Amor Sem Limites (1973)

22 de xullo de 2017

Por Quem os Sinos Dobram

Ernest Hemingway
Por Quem os Sinos Dobram (1940)

Como afirma Ricardo de la Cierva na Historia Total de España, a mitologia da guerra civil deve-se à plêiade de escritores estrangeiros que visitaram e, por vezes, intervieram activamente na guerra espanhola, quase sempre do lado republicano, quando já eram famosos ou estavam prestes a sê-lo; e foram precisamente as suas obras sobre Espanha, quase sempre, que os consagraram de forma definitiva. Embora não tenham faltado autores importantes a escrever sobre o lado franquista – e nomeia-os –, é evidente que o lado republicano contou com uma autêntica constelação de estrelas: Hemingway, Orwell, Bernanos, Malraux, Koestler, Ehrenburg, Koltsov ou Maritain. E – continua – ninguém parece ter percebido que essas obras imortais eram novelas, ou seja, obras de ficção; e que, portanto, a imagem histórica que se forjou noutros países sobre a guerra civil espanhola era uma imagem de ficção.
Ernest Hemingway passou por Madrid, em 1937, no papel de repórter, antes de contribuir para a citada mitologia com este livro, For Whom the Bell Tolls no título original, editado quando as cinzas da guerra ainda fumegavam. Nele se acompanha Robert Jordan, um americano das Brigadas Internacionais, que se junta aos guerrilheiros da montanha, na região de Segóvia, com a missão de dinamitar uma ponte. As quase 500 páginas do livro decorrem nos quase quatro dias que precedem a destruição da ponte e nos momentos seguintes, para as consequências e o desfecho.
A Jordan, o Inglés, pergunta-lhe uma das personagens: «És comunista?» «Não. Sou antifascista» responde ele, numa evasiva dir-se-ia, sendo sabido que, naquela guerra, lutar ao lado dos republicanos era lutar do lado dos soviéticos pelo triunfo do bolchevismo em Espanha – e sem a desculpa da ignorância, porque, já então, era facto bem conhecido que Estaline tinha as mãos sujas de sangue. Depois das descrições de violência gratuita e da relação amorosa com a jovem Maria, a semente da dúvida instala-se na mente de Robert Jordan, agora já não tão indiferente pelo destino dos que o rodeiam. As dúvidas que o assaltam nunca põem em causa as suas convicções, e a razão do lado pelo qual combate, «em prol de todos os pobres do mundo, contra todas as tiranias», conforme a mentirosa cartilha sobejamente conhecida. Mesmo assim, Hemingway resiste a pintar a história a um preto-e-branco panfletário, sendo que a coragem e a generosidade, tal como a malvadez e a estupidez, podem ser encontradas nos dois lados em contenda. A própria citação de John Donne, que abre o livro, onde se diz «a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano», dá o tom apropriado.
Mas, ao escolher o seu «lado», Hemingway, tal como muitos outros ao longo do tempo, terá sentido o suporte de uma duvidosa «superioridade moral» devida a um Governo tido por «legítimo», derrubado pela «tenebrosa revolta fascista». (Em nome desse princípio, quanta asneira se tem feito em Espanha nos últimos 40 anos!). Pois bem: até essa cartada estava viciada, já que os estudos mais recentes (Manuel Álvarez Tardío, Roberto Villa García) e a documentação trazida à luz do dia (as recuperadas memórias de Niceto Alcalá-Zamora, Presidente da República entre 1931 e 1936, roubadas da caixa-forte de um banco madrileno, em 1937, pelo Governo republicano) provam, sem margem para dúvidas, que a Frente Popular foi derrotada na eleições de Fevereiro de 1936 e não teve qualquer pejo em recorrer a um «pucherazo», uma fraude eleitoral, para contornar uma desvantagem de 700 mil votos.

Não, ele executaria as ordens, embora tivesse a infelicidade de gostar das pessoas de quem tinha de servir-se e iria sacrificar.
Todos os trabalhos que os partizans tinham feito sempre haviam dado azar e sempre pioraram a situação dos que os acolhiam e auxiliavam. E para quê? Para que, no fim de contas, o país se visse livre de todos os males e se tomasse um lugar agradável para viver. Era verdade, por mais banal que isso pudesse parecer.
Se a República se desmoronasse tornar-se-ia impossível para os que nela acreditavam viver em Espanha. Mas seria assim? Era, estava certo disso pelo que sabia que vinha acontecendo nas zonas onde os fascistas já dominavam.
Pablo era um porco, mas os outros eram gente espantosa e não seria traição arrastá-los para aquele trabalho? Talvez. Mas se eles não o fizessem, dois esquadrões de cavalaria viriam dentro em pouco caçá-los naquelas montanhas, dentro de uma semana talvez.
Não. Não havia nada a ganhar em deixá-los em paz. A menos que toda a gente fosse deixada em paz e ninguém se metesse com o próximo. Então tu acreditas verdadeiramente que o ideal é deixar toda a gente tranquila? Sim, acreditava em tal. Mas então a sociedade organizada e tudo o mais? Isso competia aos outros. Ele tinha mais que fazer, terminada a guerra. Ele combatia naquela guerra porque a luta irrompera num país que ele amava e porque acreditava na República, e se a República fosse destruída a vida tornar-se-ia impossível para os que acreditavam nela. Estava sob o comando comunista enquanto durassem as operações. Aqui, em Espanha, eram os comunistas que revelavam a melhor disciplina, a mais razoável e a mais sã porque, na condução da guerra, eram o único partido cujo programa e disciplina lhe inspiravam respeito.
Mas que opiniões políticas eram então as suas? Não tinha nenhuma de momento. Mas não iria dizer isso a ninguém. Nunca. É que vais fazer depois? Voltar ao meu país para ganhar a vida a ensinar o espanhol, como dantes e escrever um livro verdadeiro. Tenho a impressão, sonhava ele, tenho a impressão de que me será fácil.

Li anteriormente:
O Sol Nasce Sempre (Fiesta) (1926)
O Adeus às Armas (1929)
Ilhas na Corrente (1970)

25 de xuño de 2017

La Rebelión de las Masas


José Ortega y Gasset
La Rebelión de las Masas (1930)

Julián Marías alerta, no prólogo, que este livro – o mais conhecido de Ortega y Gasset – suscitou muitos mal-entendidos, dado ser apenas uma parte do conjunto da obra do autor, na qual estão as suas raízes e a sua justificação; A Rebelião das Massas será um capítulo de sociologia integrado num pensamento mais abrangente, que, isolado do seu contexto, poderá não ser totalmente apreendido. O próprio autor acrescentou-lhe, quase uma década depois, um “Prólogo para franceses” e um “Epílogo para ingleses” com considerações acerca de como a passagem dos anos retirou pertinência ao livro – encarou mesmo a possibilidade de escrever uma segunda parte complementar.
Escrito entre 1926 e 1929, destinado a conferências e a artigos de jornal, este ensaio foi publicado como livro em 1930, e analisa a emergência da sociedade das massas. A caracterização do homem-massa, que ocupa a primeira parte do livro, descreve a ascensão, não só ao poder mas a todos os ramos da sociedade, do homem médio, marcado pela vulgaridade e pela mediocridade, um fenómeno não de classe, mas transversal a todas as classes sociais. Se um homem de excelência é aquele que exige muito de si próprio e se define pela exigência e pelas obrigações, o homem vulgar, pelo contrário, nada exige de si, é auto-suficiente, injustificadamente confiante, e reclama os seus supostos “direitos” sem nada ter feito para os merecer. E para que não se pense que o homem-massa emana apenas da plebe, Ortega aponta a especialização como a causa do estreitamento de vistas desses indivíduos parcialmente qualificados, os sábios-ignorantes, que, sendo versados nas matérias que lhes respeitam, julgam ter opinião válida sobre qualquer coisa, mesmo que fique fora da sua área de especialização – política, arte, religião e todas as esferas da vida. E nomeia-os: médicos, engenheiros, financeiros, professores e, de um modo geral, os chamados «homens de ciência», a quem acusa de um comportamento primitivo e bárbaro, que simbolizam o império das massas. Na sociedade de massas não será por isso de espantar que o plano político reflicta o que se passa no plano intelectual e moral.
Quanto à Europa se encontrar ou não em decadência, uma questão que preocupava o pensamento da época, Ortega y Gasset não via motivos de preocupação. Reconhece a existência de uma crise moral, mas considera-a circunstancial, dado que a aliança da democracia liberal com o desenvolvimento técnico frutificou numa sociedade de abundância com parâmetros de bem-estar material jamais vistos. Os totalitarismos que então avançavam merecem-lhe duras críticas, considera-os regressivos e produto típico dos homens-massa.
Numa segunda parte em que analisa a natureza do poder, o modo como ele é exercido e o que sucede na sua vacilação ou ausência, com comparações históricas, destaca-se o seu europeísmo optimista defendendo a integração dos estados numa entidade supranacional como superação da crise observada, que associa à exiguidade de horizontes que considera terem atingido os estados nacionais, também eles forjados pouco antes pela união de estados fragmentados – sublinhando: sem a anulação das nações. Temos, assim, a defesa de um império sem imperialismo que devolvesse à Europa o espírito de liderança civilizacional, no qual ela parecia então desacreditar.

Nos encontramos, pues, con la misma diferencia que eternamente existe entre el tonto y el perspicaz. Éste se sorprende a sí mismo siempre a dos dedos de ser tonto; por ello hace un esfuerzo para escapar a la inminente tontería, y en ese esfuerzo consiste la inteligencia. El tonto, en cambio, no se sospecha a sí mismo: se parece discretísimo, y de ahí la envidiable tranquilidad con que el necio se asienta e instala en su propia torpeza. Como esos insectos que no hay manera de extraer fuera del orificio en que habitan, no hay modo de desalojar al tonto de su tontería, llevarlo de paseo un rato más allá de su ceguera y obligarlo a que contraste su torpe visión habitual con otros modos de ver más sutiles. El tonto es vitalicio y sin poros. Por eso decía Anatole France que un necio es mucho más funesto que un malvado. Porque el malvado descansa algunas veces; el necio, jamás.
No se trata de que el hombre-masa sea tonto. Por el contrario, el actual es más listo, tiene más capacidad intelectiva que el de ninguna otra época. Pero esa capacidad no le sirve de nada; en rigor, la vaga sensación de poseerla le sirve sólo para cerrarse más en sí y no usarla. De una vez para siempre consagra el surtidor de tópicos, prejuicios, cabos de ideas o, simplemente, vocablos hueros que el azar ha amontonado en su interior, y con una audacia que sólo por la ingenuidad se explica, los impondrá dondequiera. Esto es lo que en el primer capítulo enunciaba yo como característico en nuestra época: no que el vulgar crea que es sobresaliente y no vulgar, sino que el vulgar proclame e imponga el derecho de la vulgaridad o la vulgaridad como un derecho.
El imperio que sobre la vida pública ejerce hoy la vulgaridad intelectual es acaso el factor de la presente situación más nuevo, menos asimilable a nada del pretérito. Por lo menos en la historia europea hasta la fecha, nunca el vulgo había creído tener «ideas» sobre las cosas. Tenía creencias, tradiciones, experiencias, proverbios, hábitos mentales, pero no se imaginaba en posesión de opiniones teóricas sobre lo que las cosas son o deben ser —por ejemplo, sobre política o sobre literatura—. Le parecía bien o mal lo que el político proyectaba y hacía; aportaba o retiraba su adhesión, pero su actitud se reducía a repercutir, positiva o negativamente, la acción creadora de otros. Nunca se le ocurrió oponer a las «ideas» del político otras suyas; ni siquiera juzgar las «ideas» del político desde el tribunal de otras «ideas» que creía poseer. Lo mismo en arte y en los demás órdenes de la vida pública. Una innata conciencia de su limitación, de no estar calificado para teorizar, se lo vedaba completamente. La consecuencia automática de esto era que el vulgo no pensaba, ni de lejos, decidir en casi ninguna de las actividades públicas, que en su mayor parte son de índole teórica.
Hoy, en cambio, el hombre medio tiene las «ideas» más taxativas sobre cuanto acontece y debe acontecer en el universo. Por eso ha perdido el uso de la audición. ¿Para qué oír, si ya tiene dentro cuanto falta? Ya no es sazón de escuchar, sino, al contrario, de juzgar, de sentenciar, de decidir. No hay cuestión de vida pública donde no intervenga, ciego y sordo como es, imponiendo sus «opiniones».
Pero ¿no es esto una ventaja? ¿No representa una progreso enorme que las masas tengan «ideas», es decir, que sean cultas? En manera alguna. Las «ideas» de este hombre medio no son auténticamente ideas, ni su posesión es cultura. La idea es un jaque a la verdad. Quien quiera tener ideas necesita antes disponerse a querer la verdad y aceptar las reglas de juego que ella imponga. No vale hablar de ideas u opiniones donde no se admite una instancia que las regula, una serie de normas a que en la discusión cabe apelar. Estas normas son los principios de la cultura. No me importa cuáles. Lo que digo es que no hay cultura donde no hay normas a que nuestros prójimos puedan recurrir. No hay cultura donde no hay principios de legalidad civil a que apelar. No hay cultura donde no hay acatamiento de ciertas últimas posiciones intelectuales a que referirse en la disputa. No hay cultura cuando no preside a las relaciones económicas un régimen de tráfico bajo el cual ampararse. No hay cultura donde las polémicas estéticas no reconocen la necesidad de justificar la obra de arte.
Cuando faltan todas esas cosas, no hay cultura; hay, en el sentido más estricto de la palabra, barbarie. Y esto es, no nos hagamos ilusiones, lo que empieza a haber en Europa bajo la progresiva rebelión de las masas. El viajero que llega a un país bárbaro sabe que en aquel territorio no rigen principios a que quepa recurrir. No hay normas bárbaras propiamente. La barbarie es ausencia de normas y de posible apelación.

17 de xuño de 2017

Mona Lisa Acelerada

William Gibson
Mona Lisa Acelerada (1988)

Mona Lisa Overdrive no seu título original, é o último livro da trilogia Sprawl, o qual optei por ler na tradução espanhola depois das más experiências com as traduções em português do Brasil.
Uma vez mais o fio narrativo segue diferentes personagens em histórias simultâneas, mais ou menos convergentes, que têm por fundo a acção de AIs que se tornaram autónomas e conscientes.
Kumiko Yanaka, uma miúda de 13 anos de Tóquio, que vem para Londres para ficar a salvo de uma esperada guerra de gangs que envolvem o seu pai. É acompanhada inicialmente por uma enigmática Sally Shears, que acaba por se revelar a Molly de Neuromancer.
Slick Henry, um mecânico ex-presidiário que vive numas instalações arruinadas pertencentes a um sujeito chamado Gentry, que, para pagar uma antiga dívida, vê-se obrigado a albergar um indivíduo em estado inconsciente, ligado a um imenso bloco de dados de realidade virtual. Esse indivíduo, a quem ouviram chamar Conde, sabe-se mais tarde ser Bobby Newmark, o Conde Zero. Quanto a Gentry é igualmente um obcecado pelos segredos ciberespaço.
Angela Mitchell, uma superestrela do estim, que passa uns dias isolada numa casa de Malibú, no intervalo de uma cura de desintoxicação, rodeada de vigilância electrónica por todo o lado. Angela, é a filha de Christopher Mitchell, uma das personagens centrais de Count Zero; na infância, o pai operou sobre ela uma transformação neurológica que a põe no centro da trama deste livro, quando o seu caminho se cruza com o de Molly.
A jovem Mona Lisa, uma espécie de “dançarina exótica” de Cleveland, viciada em droga, que no início do livro se encontra na Florida com Eddy, o seu companheiro e “empresário”, sem quaisquer perspectivas de vida, o que muda rapidamente com uma viagem de avião ao Sprawl – essa imensa mancha urbana que agregou várias cidades da costa leste dos EUA. Aí, descartado Eddy, submetem-na uma operação plástica que a transforma numa sósia de Angela Mitchell, numa obscura jogada que pretende a troca de personalidades.
Apesar de funcionar como uma obra isolada, pelo cruzamento de personagens e situações é de toda a conveniência ter lido anteriormente os outros dois tomos da trilogia. Para quem os já leu, este é o complemento final que não deve ser perdido. Talvez não seja má ideia, como método, ler os três livros de seguida – coisa que eu não fiz...

Piper y Raebel se pusieron sendos jerseys y salieron a la terraza, donde se quedaron calentándose las manos al calor de las brasas, y Angie se encontró a solas con el director en la sala de estar.
—Estabas a punto de contarme, David, lo que hacías en el pozo...
—Buscaba solitarios de verdad. —Se pasó una mano por el enmarañado cabello.— Viene de una cosa que quise hacer el año pasado y que tenía que ver con las comunidades intencionales de África. El problema está en que, una vez que llegué allí arriba, me enteré de que todo aquel que va tan lejos, que realmente vive a solas en órbita, está por lo general decidido a quedarse así.
—¿Estuviste grabando? ¿Haciendo entrevistas?
—No. Quería encontrar personas así y convencerlas de que se grabaran ellas mismas sus propios segmentos.
—¿Lo hiciste?
—No, pero oí algunas historias. Unas historias estupendas. Un piloto de remolcador aseguraba que hay niños salvajes que viven en una fábrica de drogas japonesa aislada. Allí fuera hay toda una serie de mitos nuevos, de verdad: naves fantasmas, ciudades perdidas... La cosa tiene su pathos, si lo piensas. Quiero decir, todas esas cosas están bloqueadas en órbita. Todo ello ha sido hecho por el hombre, conocido, poseído, colocado en un mapa. Es como ver mitos que echan raíces en un aparcamiento. Aunque supongo que a la gente le hace falta ese tipo de cosas, ¿no?
—Sí —dijo Angie, pensando en Legba, en Mamman Brigitte, en las mil velas...
—Sin embargo —agregó Pope—, lamento no haber podido llegar hasta Lady Jane. ¡Qué historia tan increíble! Gótico puro.
—¿Lady Jane?
—Tessier-Ashpool. Su familia construyó el toro de Freeside. Pioneros de órbita alta. Plan de Rodaje tiene un vídeo que es una maravilla... Dicen que ella mató a su padre, y es la última del linaje. Se les acabó el dinero hace años. Lo vendió todo, hizo que separasen su casa de la punta del huso y se hizo remolcar a otra órbita...
Angie se incorporó en el diván, con las rodillas bien juntas, los dedos entrelazados. Le corrieron gotas de sudor por los costados.
—¿No sabes la historia?
—No —dijo ella.
—Eso ya es interesante de por sí, porque demuestra hasta qué punto eran adeptos a la oscuridad. Utilizaban su dinero para mantenerse a salvo de las noticias. La madre era Tessier, y el padre Ashpool. Construyeron Freeside cuando no existía nada que se le pareciera. Con eso se hicieron espectacularmente ricos. Quizá cuando murió Ashpool ocuparan un muy cercano segundo lugar después de Josef Virek. Y, por supuesto, con el tiempo se hicieron también fantásticamente raros: les había dado por clonar a sus hijos al por mayor...
—Eso suena... horrible. Y tú intentaste, ¿trataste de dar con ella?
—Vaya, hice algunas averiguaciones. Plan de Rodaje me había conseguido ese vídeo de Becker, y su órbita aparece en el libro, claro, pero no quedaba bien eso de dejarse caer sin haber sido invitado, ¿verdad? Y además Hilton me hizo llamar para volver al trabajo... ¿No te sientes bien?
—Sí, creo..., creo que voy a cambiarme de ropa, me pondré algo más abrigado.

Li anteriormente:
Count Zero (1986)
Neuromancer (1984)

3 de xuño de 2017

Do Liberalismo à Apostasia – A Tragédia Conciliar

Marcel Lefebvre
Do Liberalismo à Apostasia – A Tragédia Conciliar (1987)

Como já escrevi sobre outro livro, no início deste ano, adaptando agora o tema e os autores, «Não tenho por hábito ler livros sobre religião escritos por membros do clero, mas...», e este mas prende-se com a personalidade do arcebispo Marcel Lefebvre (1905-1991), pois basta ler a sua biografia para se perceber a dimensão da sua integridade, de homem que não pactuou com aqueles que considerava os destruidores do catolicismo. Recordo-me, já vão mais de 30 anos, de ler o seu nome em curtas notícias sobre a sua «rebeldia» em continuar a celebrar a missa em latim – o que me parecia então uma bizantinice – porém o tema não era aprofundado e nunca me apercebi do que estava realmente em questão. Entretanto, recentemente, li um excerto deste mesmo livro, o qual me trouxe até aqui.
Com um título original ainda mais longo do que o desta edição publicada no Brasil (Ils l'ont découronné : du libéralisme à l'apostasie, la tragédie conciliaire), este livro tem por base uma série de conferências feitas no seminário de Écône, cidade suíça onde Lefebvre foi bispo, onde fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, e onde está sepultado.
Marcel Lefebvre entende que a Verdade é imutável por definição; a Verdade não pode ser uma coisa hoje e outra coisa diferente amanhã; para a fé, a evolução é a morte. Depois de fazer um historial do liberalismo, fruto do racionalismo e do subjectivismo, e da crítica que historicamente os papas lhe moveram, recorrendo à citação de inúmeros textos papais entre o séc. XIX e a primeira metade do séc. XX acerca do lugar da Igreja no Estado e dos perigos da modernidade, considera que o Concílio Vaticano II, minado por maçons e liberais, entra em contradição directa com a tradição e a doutrina da Santa Sé. As conclusões do Concílio levaram à ruína do direito público da Igreja, no que designa como Reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo como consequência directa a supressão do princípio do estado confessional católico, a sua laicização, a pedido do próprio Vaticano, o que considera uma verdadeira traição. Na verdade, sob o pretexto de «acompanhar os tempos», este Concílio não foi, aparentemente, a jogada mais brilhante (como a posição oficial da Igreja tenta ainda fazer crer), tendo em conta o esvaziamento dos templos e a descristianização galopante que não logrou estancar.
Crítico frontal e incómodo da Igreja pós-conciliar, Marcel Lefebvre acabou por ser excomungado por João Paulo II em 1988; foi também condenado a uma multa por um tribunal francês, em 1990, por delito de opinião, após se ter manifestado publicamente contra o perigo da imigração islâmica. Resta reconhecer a falta que fazem homens do sua craveira à Igreja e ao mundo actual.

— «Maçons, o que quereis?» O que solicitais de nós? Tal é a pergunta que o Cardeal Bea fez aos B'nai B'rith antes do começo do Concílio: a entrevista foi relatada por todos os jornais de Nova Iorque, onde ela se realizou. Os maçons responderam que queriam a «liberdade religiosa!», o que quer dizer todas as religiões em plano de igualdade. A Igreja, de agora em diante, não há de ser chamada a única e verdadeira religião, o único caminho de salvação, a única admitida pelo Estado. Terminemos com estes privilégios inadmissíveis e declarai então a liberdade religiosa. Eles o conseguiram: foi a «Dignitatis Humanae».
— «Protestantes, o que quereis?» O que solicitais para que vos possamos satisfazer e rezar juntos? A resposta foi: Trocai vosso culto, retirai aquilo que não podemos admitir! Muito bem, lhes foi dito, inclusive os chamaremos quando formos elaborar a reforma litúrgica. Vós formulareis vossos desejos e a eles nós ajustaremos nosso culto! Assim aconteceu: foi a constituição sobre a liturgia «Sacrosanctum Concilium», primeiro documento promulgado pelo Vaticano II, que dá os princípios e o programa detalhado da adaptação litúrgica, feita de acordo com o protestantismo, depois o «Novus Ordo Missae» promulgado por Paulo VI em 1969.
— «Comunistas, o que solicitais, para que possamos ter a felicidade de receber alguns representantes da Igreja Ortodoxa Russa no Concílio? Alguns emissários do K.G.B.!» A condição exigida pelo patriarca de Moscou, foi a seguinte: «Não condeneis o Comunismo no Concílio, não faleis neste tema!». (Eu acrescentaria: sobretudo nada de consagrar a Rússia ao Coração Imaculado de Maria!) e também «manifestai a abertura do diálogo conosco». E o acordo se fez, a traição foi consumada: «Estamos de acordo, não condenaremos o comunismo!» Isto mesmo foi executado ao pé da letra: eu mesmo levei, juntamente com Mons. De Proença Sigaud, uma petição com 450 assinaturas de Padres conciliares ao Secretário do Concílio Mons. Felici, solicitando que o Concílio pronunciasse uma condenação da mais espantosa técnica de escravidão da história humana, o comunismo. Depois, como nada acontecia, perguntei onde estava nosso pedido. Procuraram e finalmente me responderam com uma desenvoltura que me deixou estupefato: «Seu pedido se extraviou numa gaveta...». E não se condenou o comunismo; ou melhor, o Concílio cuja intenção era discernir «os sinais dos tempos», foi condenado por Moscou a guardar silêncio sobre o mais evidente e monstruoso dos sinais dos tempos atuais!
Está claro que houve no Concílio Vaticano II um entendimento com os inimigos da Igreja, para terminar com as hostilidades para com eles. É um entendimento com o diabo!

23 de maio de 2017

Diario de la Guerra del Cerdo

Adolfo Bioy Casares
Diario de la Guerra del Cerdo (1969)

Este livro foi mencionado em uma ou outra análise às reacções ao Brexit, e com razão.
Um grupo de amigos rondando os sessenta anos constata, com preocupação, na sua cidade, a criação de um ambiente de hostilidade em relação aos velhos, por parte dos jovens. Esses jovens, influenciados por um demagogo televisivo, partem para a violência, agressão e até assassínio, num clima de certa impunidade e, até, condescendência. Centrado na personagem de Isidoro Vidal, acompanhamos os casos e dramas no seu grupo, ao qual se referem muito naturalmente como «os rapazes», sem entenderem muito bem se já ultrapassaram a fronteira fatídica da idade que os torna num alvo preferencial. Uma frase do capítulo XLI resume a sua posição: «Os jovens não entendem até que ponto a falta de futuro elimina o velho de todas as coisas que na vida são importantes».
Ao contrário da sociedade tradicional, onde o ancião é respeitado pelo seu conhecimento e experiência, na moderna sociedade materialista e mercantilista o velho é considerado obsoleto e um peso morto; esta obra foi escrita há quase 50 anos e, ao intuir o que aí vinha, Bioy Casares foi um visionário.

Cuando dobló por Paunero, Vidal sintió de pronto una íntima convicción de estar solo. Dirigió la vista al sitio que debía ocupar Isidorito; ahí no había nadie. Se volvió hacia la esquina. Isidorito se alejaba en dirección a Bulnes.
—¿No venís a casa? —gritó Vidal.
—Sí, ya voy, viejo. Hago una diligencia y voy —contestó quejumbrosamente el muchacho.
Vidal pensó que sin duda llega un momento en la vida en que, haga uno lo que haga, solamente aburre. Queda entonces una manera de recuperar el prestigio: morir. Ambiguamente agregó: Por tan poco tiempo no vale la pena.
Había llegado a su casa. El temor de que Bogliolo, recostado contra la puerta, lo hubiera sorprendido en su monólogo, lo indujo a saludarlo excesivamente:
—¿Qué se cuenta, señor Bogliolo? ¿Cómo le va?
El otro no contestó en seguida. Después dijo:
—No le extrañe si no le devuelvo el saludo. Yo, a un hombre que no me cumple un encargo, lo doy por muerto. Le digo más: le concedo la importancia que se da a una basura.
Vidal lo miró desde abajo, se encogió de hombros, caminó a la pieza. Cuando hubo cerrado la puerta se prometió a sí mismo que si alguna vez llegaba a ser un gigante, molería a palos a Bogliolo. Hacía frío en el cuarto. Pensó: “Qué raro. Hablábamos con Isidorito del individuo y a los pocos minutos lo encuentro”. Se dijo que esos presagios, a lo mejor simples coincidencias, recuerdan que la vida, tan limitada y concreta para quien procura indicios del más allá, siempre puede envolvernos en pesadillas desagradablemente sobrenaturales. Puso a hervir el agua. Debía acordarse de hablar con Arévalo del tema de los presagios. En la juventud, a lo largo de interminables caminatas nocturnas, habían tenido famosas discusiones filosóficas; después, aparentemente, la vida los había cansado. Llevó la pavita y el mate, se acomodó en la mecedora, mateó y, ocasionalmente, se hamacó. Cerró los ojos. En la calle resonó una bocina como las que usaban los coches de antes. Cuando oyó a lo lejos el tranvía que después de la curva se balanceaba para tomar impulso y, con un quejido metálico, avanzaba acelerando, entendió que soñaba. Si no recordaba nada de lo que luego había ocurrido tenía alguna esperanza de que fuera el alba, de estar en su casa de la calle Paraguay y de que sus padres durmieran en el cuarto de al lado. Oyó un ladrido. Se dijo que era Vigilante, el perro, atado junto a la glicina del patio. Imaginó o soñó una conversación en que refería este sueño a Isidorito, que lo encontraba gracioso, por la presencia de anticuados tranvías y de automóviles cuyas bocinas emitían sonidos ridículos. Retrospectivamente resultaba difícil distinguir lo que había pensado de lo que había soñado. Creyó por primera vez entender porqué se decía que la vida es sueño: si uno vive bastante, los hechos de su vida, como los de un sueño, se vuelven incomunicables porque a nadie interesan. Las mismas personas, después de muertas, pasan a ser personajes de sueño para quien las sobrevive; se apagan en uno, se olvidan, como sueños que fueron convincentes, pero que nadie quiere oír. Hay padres que encuentran en sus hijos un auditorio bien dispuesto, de modo que en la crédula imaginación de algún chico los muertos recuperan un último eco de vida, que muy pronto se borra como si no hubieran existido nunca.

Li anteriormente:
El Sueño de los Héroes (1954)
La Invención de Morel (1940)

8 de maio de 2017

Conversación en La Catedral

Mario Vargas Llosa
Conversación en La Catedral (1969)

A Catedral do título é o nome de uma tasca onde Santiago Zavala, jornalista, e Ambrosio, antigo motorista do pai de Santiago, passam uma tarde de conversa depois de um reencontro inesperado, anos depois de se terem visto pela última vez. Nessa conversa rememoram-se os anos passados, as voltas de uma vida que levaram ao tempo presente, num confronto de experiências que complementam as perspectivas pessoais das situações vividas. A obra, que tem por pano de fundo o ochenio de Manuel Odría, regime militar que durou de 1948 a 1956, sem pretender ser um romance histórico permite algum paralelismo entre algumas personagens e os seus equivalentes reais; a “conversa”, no entanto, tem lugar já depois do fim deste regime.
No prólogo, diz o autor que foi a obra que lhe deu mais trabalho e, se só pudesse salvar do fogo uma delas, esta seria a escolhida. Na verdade, tem algumas particularidades de escrita, como diálogos simultâneos e justaposições de cenas que surgem paralelamente, e encaixam muito bem sem perder o fio narrativo; além disso toda a história decorre em grandes planos narrativos, não lineares na sua sequência, mas que vão fazendo luz sobre o que se leu anteriormente.

Unos minutos después vio entrar a Jacobo y Aída de la mano. Ya no un gusanito ni una culebra ni un cuchillo, un alfiler que hincaba y se esfumaba. Los vio cuchicheándose junto a los añosos estantes y vio el abandono y la alegría de la cara de Jacobo y los vio soltarse cuando Matías se les acercó y vio que desaparecía la sonrisa de Jacobo y aparecía la concentración ceñuda, la abstracta seriedad, la cara que mostraba al mundo desde hacía algunos meses. Llevaba el terno café que ahora se cambiaba rara vez, la camisa arrugada, la corbata con el nudo flojo. Le ha dado por disfrazarse de proletario bromeaba Washington, piensa, se afeitaba una vez por semana y no se lustraba los zapatos, un día de estos Aída lo va a dejar se reía Solórzano.
—Tanto misterio porque ese día íbamos a dejar de jugar —dijo Santiago—. Iba a empezar la cosa en serio, Carlitos.
Había sido al comenzar ese tercer año en San Marcos, Zavalita, entre el descubrimiento de Cahuide y ese día. De las lecturas y discusiones a la distribución de hojitas a mimeógrafo en la Universidad, de la pensión de la sorda a la casita del Rímac a la librería de Matías, de los juegos peligrosos al peligro de verdad: ese día. No habían vuelto a juntarse los dos círculos, sólo veía a Jacobo y a Aída en San Marcos, había otros círculos funcionando pero si se lo preguntaban a Washington respondía en boca cerrada no entran moscas y se reía. Una mañana los llamó: a tal hora, en tal parte, sólo ellos tres. Iban a conocer a uno de Cahuide, que le plantearan las preguntas que quisieran, las dudas que tuvieran, piensa esa noche tampoco dormí. A ratos Matías alzaba la vista desde el patio y les sonreía, en la habitación del fondo ellos fumaban, hojeaban las revistas; miraban constantemente el zaguán y la calle.
—Nos citó a las nueve y son nueve y media —dijo Jacobo—. A lo mejor no vendrá.
—Aída cambió mucho apenas estuvo con Jacobo —dijo Santiago. Bromeaba, se la veía contenta. En cambio él se puso serio y dejó de peinarse y de cambiarse. No se reía con Aída si alguien lo veía, casi no le dirigía la palabra delante de nosotros. Tenía vergüenza de ser feliz, Carlitos.

Li anteriormente:
Los Jefes (1959)
Lituma nos Andes (1993)
A Guerra do Fim do Mundo (1981)

17 de abril de 2017

25 de Abril – Episódio do Projecto Global


Fernando Pacheco de Amorim
25 de Abril – Episódio do Projecto Global (1996)

Este é um bom livro para se ler no aniversário de uma das datas mais funestas dos quase 900 anos de História de Portugal, fugindo assim à regurgitação que os meios de comunicação do regime promovem, ano após ano, cúmplices na propaganda e no branqueamento dos factos. Um livro, segundo o autor, dirigido sobretudo às novas gerações que, tendo noção do embuste, procuram a informação suprimida que permite interpretar correctamente o curso dos eventos. Que o 25 de Abril não foi aquilo que que consta da narrativa oficial, qualquer pessoa com um mínimo de curiosidade consegue perceber – a “coincidência” da chegada de uma esquadra da NATO ao Tejo no dia 22; o significado do cravo vermelho, símbolo da Revolução (mas também dos Rothschilds e dos banqueiros londrinos), e que, em Portugal, só floresce um mês mais tarde...
A primeira parte do livro debruça-se sobre John Ruskin e Cecil Rhodes, as origens do globalismo, e a forma como as suas ideias se dispersaram discretamente pelo mundo anglo-saxónico, estando na origem de “eventos” que mais não são do que história dirigida. Descreve também como o mundo financeiro, por trás de fundações isentas de impostos, canaliza lucros não tributados para o financiamento do pensamento único, controlando facilmente todos os principais órgãos de informação, comentadores políticos, direcções de Universidades, intelectuais, que reagem em uníssono cada vez que o establishment está em risco, nas habituais manobras de manipulação de opinião pública.
Depois enquadra o 25 de Abril neste esquema geral de eventos, tentando responder às perguntas “O que foi? Quem o promoveu? O que pretendia? Em que resultou?”, agregando os factos isolados num todo coerente que explica a Revolução como um lance mais no grande tabuleiro do globalismo, destinado a arrebatar o Ultramar dos portugueses para o entregar aos obscuros interesses dos que o cobiçavam.
Fernando Pacheco de Amorim segue neste livro um fio de análise não muito vulgar no nosso país, muito menos na época em que foi escrito. O livro peca, talvez, por recorrer demasiadas vezes a alusões veladas, partindo do princípio que o leitor as identificará, o que contradiz a vontade manifestada de se dirigir aos jovens, para quem os factos descritos são já História. É também penoso verificar como em todo o seu texto, enumerando os protagonistas e os agentes por trás do impulso globalista, nem uma única vez denuncie o que a grande maioria têm em comum – à excepção de um único nome perdido no extenso índice onomástico – são judeus! O globalismo, ou NOM, só triunfa enquanto conseguir manobrar nas sombras; uma vez exposto perderá o seu poder. Fernando Pacheco de Amorim desperdiçou aqui uma excelente oportunidade de focalizar um pouco mais o seu ponto.

A oportunidade surgiu quando tive a honra de conhecer e de contactar numerosas vezes com o Senhor Contra-Almirante Pinheiro de Azevedo. Tive então ocasião de perguntar ao Senhor Contra-Almirante a que tinha obedecido a alteração do programa das F.A. e da legislação então publicada, em relação ao Ultramar, isto é, porque não se tinha aguardado uma nova Constituição para então dar cumprimento às resoluções da ONU.
O Senhor Contra-Almirante informou-me então que o que levou a alterar o compromisso assumido pelo MFA perante a Nação, tinha sido uma resolução tomada em reunião do Conselho de Estado. Disse-me que estivera várias vezes para denunciar publicamente este facto, mas que sempre hesitara com o receio de aumentar ainda mais, com a sua revelação, a grande confusão então existente.
Que se passara em tão importante reunião do Conselho de Estado, mantida tão secreta pelos seus membros num País onde não é possível guardar segredos?
Logo me assaltou a suspeita de que só a má consciência dos seus membros poderia conseguir um tal milagre neste País de linguareiros.
O Senhor Contra-Almirante confirmou-me essa suspeita! Na verdade informou-me que em determinada reunião daquele órgão de soberania, o Prof. Freitas do Amaral defendera, numa extensa exposição, que não seria necessário esperar por uma nova Constituição para se dar início ao processo de descolonização, pois que a legislação em vigor permitia que se lhe desse início.
O Senhor Contra-Almirante, ainda a propósito do Prof. Freitas do Amaral, disse-me que após a sua exposição, os militares, embaraçados, se entreolharam, surpreendidos, mas naturalmente sem argumentos para combater os da tese apresentada e que, os restantes membros do Conselho que poderiam ter argumentado dada a sua formação académica, logo se manifestaram em calorosos elogios à proposta apresentada, tendo ficado desde logo decidido dar-se início à descolonização.
Estava dado o primeiro passo de uma grande tragédia.
Tendo, mais tarde, procurado informar-me de quem tinha acesso às actas do Conselho de Estado, para me certificar da exactidão da informação que o Senhor Contra-Almirante me tinha dado, constou-me que o Senhor General Eanes, logo após a tomada de posse da Presidência da República, tendo querido chamar a si aquelas actas e as da Comissão da Descolonização foi informado do seu desaparecimento. Será verdade? Não me surpreende que o seja. Haverá alguém que se surpreenda?

15 de abril de 2017

O Diabo e Outras Histórias


Leon Tolstoi
O Diabo e Outras Histórias (1889)

O conto destacado no título da colectânea (escolhido para o excerto mais abaixo) é, talvez, aquele onde mais claramente se projectam os conflitos pessoais que atormentam tantos personagens de Tolstoi; com forte componente autobiográfica, descreve um proprietário rural que vê a sua obsessão carnal por uma camponesa, incontrolável, sobrepor-se à estabilidade do seu casamento, levando-o ao desespero. Este conto, iniciado em 1889 e várias vezes reescrito (aqui apresentado com dois desfechos diferentes) foi publicado, postumamente, em 1911.
Quanto a Falso Cupom (de 1904 e também editado postumamente), o mais extenso do livro, parte de um pequeno crime cometido por dois jovens — a viciação do cheque da mesada de um deles, apertado por dívidas — que, num efeito de bola de neve, dá início a uma série de roubos e assassinatos. Os criminosos são condenados e encarcerados e, sem se conhecerem entre si, tomam contacto com o Evangelho na prisão, o que os leva à regeneração. Sendo uma das obras tardias de Tolstoi, também publicada postumamente, nela é bem evidente a sua interpretação pessoal do cristianismo, que o levou a entrar em rota de colisão com a Igreja Ortodoxa.
Fazem ainda parte desta edição os contos Três Mortes (1859), Kholstomér (1888) e Depois do Baile (1903).

Depois do café, todos se separaram. Ievguiêni, como de costume, foi para seu escritório. Não se pôs a ler nem a escrever cartas, mas ficou sentado, fumando um cigarro atrás do outro, pensando. Estava terrivelmente surpreso e amargurado com aquele sentimento detestável que nele se manifestava inesperadamente, do qual se considerava livre desde o casamento. Desde então nunca experimentara aquele sentimento, nem por ela, por aquela mulher, nem por qualquer outra, exceto por sua esposa. Muitas vezes em seu íntimo se alegrava por essa libertação, e eis que de repente aquele acaso, que parecia insignificante, vinha lhe revelar que não estava livre. Atormentava-se nesse momento não pelo fato de estar outra vez subordinado àquele sentimento, de desejá-la — nem queria pensar nisso —, mas porque o sentimento ainda estava vivo dentro dele, porque era preciso estar em alerta. No íntimo, não havia nem sombra de dúvida de que acabaria por vencê-lo.
Tinha que responder a uma carta e preencher um documento. Sentou-se à escrivaninha e pôs-se a trabalhar. Quando terminou, esquecido do que o inquietava, deixou o escritório para ir à estrebaria. Outra vez, como por azar, não se sabe se por uma coincidência infeliz ou de caso pensado, mal descera à varanda fechada quando surgiu de um canto uma saia vermelha, um lenço vermelho e ela passou por ele, balançando os braços e se requebrando. Como se não bastasse ter passado, deu uma corridinha, evitando-o como numa brincadeira, e alcançou a companheira.
Outra vez aquele meio-dia, as urtigas, os fundos da cabana de Danila, o rosto sorridente à sombra dos bordos e a folhagem urticante ressurgiram na imaginação dele.
"Não, não posso deixar isso assim" — disse consigo e, depois de esperar que as mulheres sumissem de sua vista, dirigiu-se ao escritório.

Li anteriormente:
A Morte de Ivan Ilitch (1886)
Guerra e Paz (1869)
Ana Karenina (1878)

8 de abril de 2017

The War of the Worlds


H. G. Wells
The War of the Worlds (1898)

Este livro, intitulado A Guerra dos Mundos em português, é o título mais conhecido de H. G. Wells, certamente devendo mais a sua celebridade às inúmeras adaptações que sofreu do que à leitura da obra escrita. A primeira vez que dele tive conhecimento foi, creio, num filme passado na televisão, onde se contava como Orson Welles espalhou o pânico com a sua adaptação radiofónica de 1938.
A história, toda a gente a conhece, trata de uma invasão de marcianos que, armados de tecnologia superior, levam a cabo uma destruição inaudita em Londres e arrabaldes, acabando derrotados pela vida microbiana, contra a qual não estavam preparados.
A ameaça extraterrestre, tema que marcou uma época na literatura FC, terá começado aqui. Nas últimas décadas, um novo entendimento defende que, se uma civilização conseguir um tal avanço tecnológico que lhe permita viajar entre as estrelas (Marte já estava então descartado da possibilidade de albergar vida inteligente), deverá ter uma evolução ética correspondente, que a impeça de fazer a guerra a outras civilizações que encontre... Um pacifismo, sinal dos nossos tempos, que apenas reconhece a sua ética, validada na projecção antropomórfica de um ser humano de sentido único, que não passa de uma construção baseada num desejo. Como explicou Stanislaw Lem em Solaris, a motivação de uma mente alienígena poderá estar muito para além da compreensão humana. E, regressando a The War of the Worlds, é-nos explicado que os marcianos se encontravam em risco de extinção no seu planeta moribundo; a invasão era, para eles, uma questão de vida ou morte.

Suddenly I heard a noise without, the run and smash of slipping plaster, and the triangular aperture in the wall was darkened. I looked up and saw the lower surface of a handling-machine coming slowly across the hole. One of its gripping limbs curled amid the debris; another limb appeared, feeling its way over the fallen beams. I stood petrified, staring. Then I saw through a sort of glass plate near the edge of the body the face, as we may call it, and the large dark eyes of a Martian, peering, and then a long metallic snake of tentacle came feeling slowly through the hole.
I turned by an effort, stumbled over the curate, and stopped at the scullery door. The tentacle was now some way, two yards or more, in the room, and twisting and turning, with queer sudden movements, this way and that. For a while I stood fascinated by that slow, fitful advance. Then, with a faint, hoarse cry, I forced myself across the scullery. I trembled violently; I could scarcely stand upright. I opened the door of the coal cellar, and stood there in the darkness staring at the faintly lit doorway into the kitchen, and listening. Had the Martian seen me? What was it doing now?
Something was moving to and fro there, very quietly; every now and then it tapped against the wall, or started on its movements with a faint metallic ringing, like the movements of keys on a split-ring. Then a heavy body—I knew too well what—was dragged across the floor of the kitchen towards the opening. Irresistibly attracted, I crept to the door and peeped into the kitchen. In the triangle of bright outer sunlight I saw the Martian, in its Briareus of a handling-machine, scrutinizing the curate's head. I thought at once that it would infer my presence from the mark of the blow I had given him.
I crept back to the coal cellar, shut the door, and began to cover myself up as much as I could, and as noiselessly as possible in the darkness, among the firewood and coal therein. Every now and then I paused, rigid, to hear if the Martian had thrust its tentacles through the opening again.
Then the faint metallic jingle returned. I traced it slowly feeling over the kitchen. Presently I heard it nearer—in the scullery, as I judged. I thought that its length might be insufficient to reach me. I prayed copiously. It passed, scraping faintly across the cellar door. An age of almost intolerable suspense intervened; then I heard it fumbling at the latch! It had found the door! The Martians understood doors!
It worried at the catch for a minute, perhaps, and then the door opened.
In the darkness I could just see the thing—like an elephant's trunk more than anything else—waving towards me and touching and examining the wall, coals, wood and ceiling. It was like a black worm swaying its blind head to and fro.
Once, even, it touched the heel of my boot. I was on the verge of screaming; I bit my hand. For a time the tentacle was silent. I could have fancied it had been withdrawn. Presently, with an abrupt click, it gripped something—I thought it had me!—and seemed to go out of the cellar again. For a minute I was not sure. Apparently it had taken a lump of coal to examine.
I seized the opportunity of slightly shifting my position, which had become cramped, and then listened. I whispered passionate prayers for safety.
Then I heard the slow, deliberate sound creeping towards me again. Slowly, slowly it drew near, scratching against the walls and tapping the furniture.
While I was still doubtful, it rapped smartly against the cellar door and closed it. I heard it go into the pantry, and the biscuit-tins rattled and a bottle smashed, and then came a heavy bump against the cellar door. Then silence that passed into an infinity of suspense.
Had it gone?
At last I decided that it had.

Li anteriormente:
The Invisible Man (1897)
The Island of Doctor Moreau (1896)
The Time Machine (1895)